Protagonismo das mulheres negras no mercado de trabalho

Em parceria com a Câmara Brasileira do Livro (CBL), o Sesc São Paulo integra a programação presencial da Bienal Internacional do Livro, no espaço chamado Salão de Ideias, onde foi realizada a mesa; “Protagonismo das mulheres negras no mercado de trabalho”, contando com a presença da atriz Zezé Motta, Raquel Virgínia e mediação de Rose Borges, jornalista, doutora e mestre em Ciências da Comunicação, pesquisadora da Escola de Comunicações e Artes da USP.

Raquel Virgínia, cantora, mulher trans, cursou História na Universidade de São Paulo. Pelo grupo musical As Baías tem no currículo duas indicações ao Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa, além de CEO na agência de entretenimento e marketing Nhaí.  

Zezé Motta, saudada como a mais importante cantora e atriz do Brasil. Durante mais de 50 anos de carreira rompe barreiras e coloca no centro da cena artística nacional as múltiplas dimensões do protagonismo feminismo negro em tela. O seu imenso talento e carreira inspiram atuais e futuras gerações de mulheres que lutam por expressão, espaço e oportunidades. Ela já foi indicada ao Nobel. No auge dos seus 78 anos, é uma artista em plena atividade e encontra-se com diversos projetos na televisão, no cinema e na música. Ativa e pulsante, Zezé Motta é tida como uma das mulheres mais vibrantes da atualidade desde o final dos anos de 1970. O sucesso que conseguiu na mídia com o personagem de “Chica da Silva”, Zezé Motta vem dimensionando racismos e atuando ativamente para combatê-lo. Foi uma das fundadora do Movimento Negro Unificado e já atuou como conselheira de Direitos Humanos em Brasília. No Rio de Janeiro atuou como superintendente da Igualdade Racial. Em 1984, lançou o Centro de Documentação e Informação do Artista Negro, o famoso CDAN. Foi uma das idealizadoras do projeto Cor da Cultura que se converteu em material de apoio pedagógico em todo o território nacional para a formação de docentes e estudantes em História e Cultura Afro brasileira.

 

Salão de Ideias na Bienal Internacional do Livro, com a cantora Raquel Virgínia, a atriz Zezé Motta e a jornalista Rose Borges (Foto:@marcel_chasimages)

 

Iniciando, Rose fez a abertura contextualizando o tema; ”o mercado de trabalho é mais difícil para as mulheres negras que estão na base da pirâmide (social). As mulheres negras seguem recebendo menos em termos salariais, vem estudando mais que os homens negros mas recebem menos. O que acontece com as mulheres de maneira geral mas, com as mulheres negras quando junta gênero e raça, essa tragédia mostra sua face de maneira horrenda, ou seja, o patriarcado, o racismo, são eixos extremos de diferenciação negativa que subalterniza”, expôs, e na sequência, a mediadora sugeriu que Raquel e Zezé falassem sobre a presença das mulheres negras no campo das artes, da visibilidade, do entretenimento, dramaturgia e música.   

Zezé respondeu; “é uma luta bem antiga, sobre a mulher conquistar o seu espaço principalmente no mercado de trabalho e ter os seus direitos reconhecidos. Apesar das frustrações, nós mulheres estamos de parabéns. Porque se você fizer uma análise das dificuldades enfrentadas por todas, de todas as gerações, percebe que as mulheres estão ocupando espaço com todos os obstáculos que elas encontram pelo caminho. As mulheres estão em todos os segmentos da sociedade. 

Outro dia, eu fiquei muito feliz porque estava fazendo uma viagem (de avião) e foi anunciado que a nossa comandante era uma mulher, eu vibrei, nós todas mulheres (a bordo) vibramos. E pra falar das dificuldades que a gente enfrenta, tinha um senhor do meu lado que falou (com a maior cara de pau), “é, vamos arriscar!”. Ai que ódio! Eu olhei pra ele, (pensei) o que vai adiantar eu discutir com esse moço agora? Não é durante esse voo que eu vou recuperar essa mentalidade retrógrada, eu estou cansada, vou perder o meu tempo. Mas eu não consegui viajar do lado dele, fiquei tão irritada. E o voo foi tranquilo, aquele voo de mulher no comando (risos), com aterrissagem suave, tranquila. Na saída, paramos na frente desse homem, e fizemos uma postura de ‘tá vendo?’ (risos) Esse é apenas um exemplo. Estamos de parabéns porque dando “cotovelada” estamos conquistando o nosso espaço e tudo o que a gente faz a gente faz bem”, disse Zezé Motta. 

 

A cantora Raquel Virgínia (Foto:@marcel_chasimages)

 

Raquel respondeu; “uma tigresa de unhas negras, íris cor de mel! A gente está do lado de Zezé Motta, gente! Já ganhei a carreira. E, Rose Borges, que é uma gênio, estou aqui com duas gigantes, um privilégio como mulher trans negra poder estar do lado de duas mulheres que legitimam a minha fala, como mulher, num espaço de poder, de informação, de formação de pessoas. 

Sobre a questão, eu faço das palavras da Zezé um gancho para um pensamento de que as mulheres negras estão de parabéns porque a gente vem construindo uma trajetória extremamente poderosa diante de um País que o tempo inteiro recusa a nossa narrativa de poder. Ontem, eu falava sobre a questão do ecossistema do dinheiro, qual é a jornada do dinheiro no Brasil? De onde o dinheiro sai e pra onde o dinheiro vai? E dentro dessa jornada as mulheres negras são a base desse dinheiro, elas constroem a base desse dinheiro mas, elas não são o destino final desse dinheiro, o usufruto. A gente participa ativamente da construção dessa sociedade, sempre participou da construção da sociedade brasileira, mas nós não gozamos dos privilégios que existem na sociedade brasileira e ainda, não estamos nos espaços de decisão. Isso vem evoluindo como bem disse Zezé, ao trazer o exemplo da comandante do avião, que também é um espaço de decisão, um espaço de poder. Nós estamos evoluindo nessa construção. 

Aqui, por exemplo, estamos nesse espaço, discutindo isso, já é uma evolução e mostra o quanto a luta de outras gerações ecoam na nossa geração, mas sinto que a gente ainda precisa pensar muito na jornada do poder no Brasil. A gente ainda tem questões pra construir quando a gente fala sobre o quanto pra nós é mais difícil sermos reconhecidas; o quanto pra nós é mais difícil disputar com outros grupos identitários; o quanto pra nós sempre, sempre, há muito mais barreiras e muito mais dificuldades, muito mais provação. Mas ao mesmo tempo, o quanto o Brasil — quando diminuir os estigmas em torno da mulher negra—, vai se posicionar como uma grande potência. Porque as mulheres negras podem sim, já são. Quando tiver espaços de poder definindo jornada de dinheiro, definindo estratégias, definido gestão dentro desse País, o quanto de inovação, o quanto de potência a gente vai poder oferecer e ainda mais para a construção de um País mais competitivo, mais inovador. Eu sinto que nós aqui, estamos numa missão ancestral de fazer com que a gente leve esse Brasil pra onde ele tem que ir e, esse País precisa ser conduzido por mulheres negras. 

Se a gente pensar que os governos de direita, a governos de esquerda, a mulher negra não faz parte do lugar de decisão, isso é gravíssimo. A gente fica fazendo disputa entre um governo e outro mas, se você olhar a composição do governo de esquerda que está prestes a ganhar a eleição não tem mulheres negras em destaque. Todo mundo vai votar no candidato progressista, mas mesmo o candidato progressista não tem mulheres negras em destaque na sua composição de governo que está pra se formar. Isso é uma denúncia do que a gente precisa fazer pra realmente repensar o que significa a mulher negra com lugar de decisão de poder nesse País. E o quanto a gente perde, não só do ponto de vista de responsabilidade social, do ponto de vista de ética, mas do ponto de vista de potência. Porque Zezé Motta é uma gênio, porque Rose é uma genial, porque eu também, não vou ser falsa modéstia, sou genial. Como exemplo, três mulheres negras que podem com certeza contribuir para o Brasil se tornar mais potente. E, por conta de um país que não consegue reconhecer isso e de abrir mão de alguns privilégios, não se torna mais inovador e a gente vai perdendo”, frisou Raquel Virgínia. 

 

Rose Borges, jornalista, doutora e mestre em Ciências da Comunicação, da ECA da USP (Foto:@marcel_chasimages)

 

Rose contextualiza o papel da mulher diante de políticas públicas como o Programa Bolsa Família; “Quando se pensa a nossa participação na vida nacional, na vida do trabalho, nós sempre somos vistas como eficientes, ao contrário dos preconceitos da discriminação de que a mulher não pode ocupar determinados cargos de poder porque são emotivas — esse é um preconceito que se converte em discriminação —, que as nossas ausências nos postos de poder revelam como esses preconceitos eles são materializados no mundo corporativo, das empresas. 

Do ponto de vista dos governos, eu me lembro, nos primeiros anos do Programa Bolsa Família, diziam que Bolsa Família seria um desastre porque os pobres iriam consumir com a compra de bebidas alcólicas. E o Bolsa Família foi um Programa muito bem feito porque ele pensou na mulher. Porque as mulheres sabem chefiar a sua casa e sabem destinar o pouco que tem para uma vida minimamente digna para os seus filhos. O Programa foi exitoso porque teve as mulheres ali na ‘ponta de lança’. Somos empreendedoras desde a escravidão. É bom lembrar que o empreendendorismo começa no pós-escravidão com as chamadas escravas de ganho, mas ao mesmo tempo, o ponto fundamental do ponto de vista da institucionalidade, somos pensadas como destinatários de políticas públicas. Não somos pensadas como mentes inteligentes, capazes de desenhar projetos e propostas para o Brasil. 

A gente conhece a Zezé na sua face artista, mas a Zezé também tem outro lado menos conhecido que é a Zezé Motta gestora que criou o CDAN, ou seja, uma mulher que se engaja para pensar o País, além da sua contribuição na cultura, se só fizesse cinema e teatro”, Rose Borges. 

No momento de perguntas para as convidadas, elas são questionadas; “nesse lugar de gestoras, mulheres negras que pensam o País, contribuem para projetos emancipatórios, inclusivo, plural de nação; como é que vocês se veem nesse lugar, nesse território? 

Zezé responde. ”Como você mencionou muito o CDAN eu gostaria de falar sobre esse projeto. Quando eu comecei na minha carreira, quando as coisas deram certo pra mim, eu olhei para os lados e falei, cadê todo mundo? Nós éramos meia dúzia de negros na arte dramática. O projeto que eu participasse, não tinha lugar para a (atriz) Neusa Borges porque somos contemporâneas, era um negro em cada projeto. E por aí acontecia. Isso passou a ser uma preocupação do meu dia a dia, por isso que eu criei o Centro de Formação e Documentação do Artista Negro porque quando a gente começou a cobrar os produtores, os diretores, o por quê dessa quase invisibilidade do negro na mídia? Eles diziam, ‘se eu chamo você e o Pitanga é porque eu só conheço vocês. Eu não sei onde encontrar outros atores negros’. 

Pensem; como é que sabem onde encontrar os atores brancos e não sabem onde encontrar os atores negros? Então, a proposta do CDAN era essa: dizer quem somos, quantos somos, e onde estamos! A ideia deu início a um catálogo de atores negros e com o avanço da tecnologia a gente pensou na ideia de, ao invés de catálogo, vídeos de cenas com atores negros para a mídia. Mas infelizmente, o dinheiro é uma coisa complicada, sem o dinheiro é muito difícil. Tivemos o patrocínio de uma empresa americana e quando esse dinheiro acabou, depois de quatro anos, o diretor falou que não contasse com ele, que não tinha espaço na gestão dele para aquele tipo de projeto. 

É claro que nós não gostaríamos de estar aqui falando, nós os negros, os negros mas, enquanto tiver discriminação nesse País e, enquanto os negros não estiverem ocupando os seus espaços, assim com as mulheres, enquanto isso acontecer a gente tem que bater nessa tecla. A luta continua”, destacou Zezé Motta.

Raquel responde; “Zezé, como é importante esse trabalho de mapeamento de artistas negros. Olha que interessante, hoje, muito do trabalho que a minha agência faz, também é ajudar as pessoas a encontrar talentos trans. Por muito tempo as pessoas dizem: onde eu encontro pessoas trans? Ainda acham que as pessoas trans são garotas de programa, a gente ainda acha que as pessoas trans trabalham apenas como profissionais do sexo. Quando se trata das pessoas trans, a gente tem uma série de pessoas que tem os mais diversos talentos. Veja como a luta muda de geração mas, a gente precisa continuar mapeando e mostrando para as pessoas como se elas não soubessem que existem outras pessoas nesse País. Na próxima semana faremos um encontro de empreendedores LGBTQIA+, nesse encontro estarão presentes mais de seiscentos empreendedores LGBTQIA+, mapeados um a um, descobrindo pessoas que tem projetos incríveis, invisibilizados. Porque, quando as pessoas dizem que não sabem onde estão, não é que elas não sabem onde estão, é que elas não querem saber onde estão. É diferente, é um posicionamento. 

Dentro do empreendedorismo nós estamos com um desafio de criar projetos que a gente tire as pessoas dessa zona de conforto e que a gente possa oferecer frontalmente para elas o que elas dizem que elas não acham. Foi o que a Zezé fez. A próxima questão que eles falam é, ‘poxa, é verdade, existe essa pessoa, mas ela não está preparada ainda’. Beleza! Então, a gente vai preparar um curso pra deixá-la preparada. Cria-se um monte de plataformas para preparar essas pessoas, prepara. Aí, ela resolve dizer que agora acabou o dinheiro, ou seja, você olha pro lado o dinheiro está existindo em outros projetos. 

A gente precisa entender qual é o posicionamento das pessoas quando se trata de pessoas negras, de pessoas LGBTQIA+, de mulheres em geral; das pessoas que são politicamente minimizadas. A gente precisa entender exatamente que o projeto é justamente esse, sempre vai existir um argumento, ‘poxa, se você tivesse chegado ontem. Hoje acabou’. Aí você luta pra chegar um dia antes. 

O que significa a gente se tornar empreendedores, donos das empresas?

Significa que quem vai, de alguma forma determinar o tempo somos nós. Com a minha empresa eu tento determinar o tempo das coisas. Eu não fico mais pedindo pra entrar nos projetos, eu crio os projetos. Eu me passei a tornar a dona do projeto. Isso não é simples, implica numa série de privilégios que eu tive por conta da música. Eu fui abrindo outras portas, que me fazem conseguir ser a dona de uma empresa que consegue abrir portas porque tem uma carreira musical, mas, ainda assim eu não consigo ver uma outra maneira. Porque, de alguma forma já está dado que nós não estamos inseridas(os) no projeto deles. 

São muitos desafios. O que a gente precisa ter é cada vez mais referências, porque é muito importante ter Zezé Motta como referência, com certeza ela é uma inspiração para que eu crie projetos, assim como Rose. Criar faróis de pessoas que vão se tornar faróis para que a gente tenha condições cada vez mais de sermos as donas dos projetos, um ecossistema de mulheres negras donas do projeto. É uma tentativa”, afirmou Raquel Virgínia. 

 

A atriz Zezé Motta no debate sobre o mercado de trabalho para as mulheres negras (Foto:@marcel_chasimages)

 

Zezé pede a palavra; “Eu queria acrescentar que inevitavelmente a nossa tendência é sempre citar a mulher negra mas, sabemos que por uma questão de discriminação de gênero todas as mulheres são guerreiras e tem que batalhar muito pra conquistar o seu espaço, independente de ser negra ou não”, completou Zezé Motta. 

Rose, segue com a conclusão; “Quando a gente fala de mercado de trabalho e protagonismo das mulheres negras está falando de um problema que é antecedente, ou seja, parece que nós não existimos ou só existimos para estar no lugar certo, o corpo certo no lugar certo. 

Por exemplo, o caso das empregadas domésticas. Vou dar um depoimento rápido, eu morei em um prédio aqui em São Paulo que tinha duas meninas, duas empregadas domésticas, duas mulheres muito bonitas. Uma moça branca, de olhos verdes, o cabelo loiro, linda na sua branquitude. Um outra moça negra igualmente linda também, muito bela nos seus traços e estética negra. Essa moça branca, todas às vezes que eu entrava no elevador eu ouvia as mulheres brancas e outras pessoas com muita pena dessa menina porque ela era empregada doméstica. Eu pensava assim, vai chegar um dia que alguém vai dizer, ‘deixa eu trabalhar no seu lugar? O seu corpo não é pra isso’. Porque a conversa era assim, ‘por que você não vai ser modelo? Você é tão bonita. Você pode estudar. Você pode virar secretária executiva’. Até aí, nem um tipo de problema, em comentar um incômodo desse, como diria Caetano, ‘gente é pra brilhar’. Quanto melhor condições materiais de vida, melhor pra todo mundo. 

Teve um dia que eu encontrei a empregada negra e perguntei, escuta, as pessoas são incomodadas porque você é muito bonita e é empregada doméstica? Ela disse: ‘imagina! Ninguém me diz nada. O que eu escuto dos homens brancos quando não estão acompanhados das suas companheiras é um assédio sexual violento’. 

Pensar essas ausências, o que Zezé e a Raquel trazem, é também como é que a gente pensa que a gente cria nos nossos imaginários: o corpo certo pra executar determinadas funções. Certo dia, minha amiga e comadre branca que mora em Brasília (DF) me ligou: ‘eu fui hoje no dentista, estou contente, o meu dentista é um homem negro’. Eu falei, pronto! Lá vem aí o racismo da surpresa. Ela é muito minha amiga, e falou: ‘sua chata! Eu estou ligando para lhe dar uma notícia boa!’. Eu falei: você não ligaria pra dizer, troquei de dentista e ele é branco. Ainda que o comentário da comadre, uma pessoa antirracista revela as ausências e revela como a gente cria, naturaliza do ponto de vista do mercado de trabalho, que determinadas corporeidades são talhadas para aquilo. E outras não são. Vide o exemplo da moça branca, empregada doméstica que era muito bonita”, concluiu Rose Borges.

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