O papel dos rótulos na vida da mãe atípica

  • Dafley Simões, Psicóloga Clínica

No dicionário o significado da palavra rótulo é o seguinte; “peça geralmente de papel com inscrição ou letreiro, que serve para informar sobre o objeto em que é fixada”. Não utilizamos os rótulos somente para coisas/objetos, temos o estranho hábito de dar rótulos as pessoas, rótulos que não foram criados por elas para falar sobre si mesmas, e sim que nós criamos, baseados na pequena parte que enxergamos de fora, nem sempre são criados por mal, às vezes queremos apenas exaltar algo que consideramos como uma “qualidade”, mas que ao invés de enaltecer a pessoa, ajuda a aprisioná-la. 

As mães atípicas são obrigadas a lidar com os rótulos desde o momento em que descobrem que serão mães de crianças atípicas ou que recebem o diagnóstico de seu filho, geralmente inicia-se com o rótulo de “mãe especial”, afinal a sociedade diz que crianças especiais vêm para mães especiais, posteriormente são rotuladas como “fortes”, “guerreiras”, “bondosas”, entre outros. Não que elas não sejam, o problema é que tais rótulos ajudam a excluí-las e isolá-las em uma ilha de solidão. Quando a sociedade a rotula como sendo especial, é tirado dela o direito de não estar se sentindo feliz, aliás, quem não gostaria de se sentir especial, não é? Quando as classificamos como bondosas, a impossibilitamos de sentir raiva, quando as rotulamos como fortes e guerreiras tiramos delas o direito de admitirem que estão cansadas, que não estão dando conta sozinhas, que precisam de ajuda e estão exaustas. 

 

imagem:freepik.com

 

Tais rótulos também ajudam a sociedade a lavar suas mãos, de sua responsabilidade para com essas mães e seus filhos. Deveria ser um direito garantido a essas crianças e suas famílias o acesso a inclusão e a acessibilidade, elas deveriam ter direito a uma escola com profissionais capacitados para atender as necessidades especificas de cada criança, elas deveriam ter acesso a festas, shopping, teatros, cinemas, parquinhos e a todos aqueles lugares que qualquer pessoa deveria poder frequentar, porém não é isso que elas encontram na prática. As mães atípicas são obrigadas diariamente a lutar pelos direitos de seus filhos, muitas vezes precisam ir de porta em porta até encontrar uma escola que ofereça o mínimo para que seu filho possa se desenvolver, por vezes ouve a resposta de que o lugar não possui equipe ou adaptações necessárias pra atender as necessidades daquela criança. Quando saem, é comum encontrarem espaços não adaptados e precisarem lidar com os olhares  desagradáveis de pessoas que esperam que a criança se comporte de determinada maneira, ficando sentadas comportadamente ou brincando quietas, pessoas que não estão acostumadas a olharem de forma empática para aqueles que fogem do padrão criado socialmente.

Frequentemente deparo com relatos de mães atípicas que me dizem sobre a dor de esperarem o convite para que seus filhos compareçam a festinhas de amiguinhos da escola, ora sobre a decepção ao notarem que ele não foi incluído de forma participativa na apresentação da escola, porque não conseguiria decorar e seguir os passos da dança ensaiada ou sobre a tristeza de não poderem levar seus filhos ao cinema ou teatro como qualquer outra mãe, por não quererem encarar os olhares de julgamento quando seus filhos não conseguem parar quietos na poltrona e ainda, ao desejarem ir a algum lugar que não possui a acessibilidade adequada. É claro que muitas dessas adaptações podem e devem ser cobradas de nossos governantes, que têm o dever de garantir o acesso a inclusão e a acessibilidade, mas precisamos também fazer um exercício de consciência e olhar para as nossas atitudes do cotidiano. Quantas vezes deixamos de convidar aquele amiguinho atípico de nossos filhos por acreditar que ele não vai poder ir? Quantas vezes deixamos de nos aproximar por medo e nos escondemos atrás dos rótulos que criamos a essas mães e seus filhos? Afinal não sabemos lidar com as necessidades daquela criança, quem sabe é a mãe “especial”, eu não tenho a força que ela tem porque ela que é a mãe guerreira. É mais confortável para nós, repetir automaticamente tais afirmações do que se questionar, se informar e aprender. 

Considerar que somente a mãe atípica pode dar conta das necessidades de seu filho, sabendo como cuidar e o que fazer em cada situação ajuda a aumentar sua solidão, colocando-a em uma posição insubstituível, tornando impossível que essa mãe demande funções e possa pedir ajuda se precisar, quando na verdade, qualquer pessoa com vontade de ajudar, com as instruções necessárias, pode dar conta de cuidar dessa criança por pelo menos algumas horas, para que a mãe possa ter um tempo de qualidade para si.

Antes de começarmos a cobrar atitudes de outras esferas, precisamos começar a questionar e mudar nossas próprias atitudes, precisamos ultrapassar as barreiras criadas por esses rótulos e começar a olhar para essas mães como pessoas que sofrem, que precisam de ajuda, que precisam de apoio e acolhimento, assim como toda mãe precisa. Na hora de fazer a lista de convidados para a festinha, inclua aquele amiguinho(a) atípico, não tenha medo de ligar para a mãe e dizer que adoraria que todas as crianças pudessem estar presente e, que para isso gostaria de saber se é necessária alguma adaptação especial. Você pode mandar uma mensagem para a mãe e perguntar verdadeiramente como ela está, se colocando à disposição para conversar e ouvir de forma atenta e empática. A mãe atípica não quer rótulos, não quer ser guerreira, ela quer ajuda, apoio, compreensão, quer colo, quer poder ser fraca as vezes, poder sentir que quando ela não está mais dando conta, existem pessoas ao seu redor que possam fortalece-la ou até, por vezes, assumir determinadas funções até que ela se restabeleça.

 

 

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