O papel político da mulher; A experiência da candidatura a vice-prefeita

Entrevistei Claudia Rosana Volpato, limeirense, professora municipal aposentada, advogada cível e criminal, criança e adolescente, direitos humanos; primeira advogada do Cedeca Limeira.  Concorreu ao cargo de vice-prefeita a Prefeitura Municipal de Limeira (SP), em 2020, na chapa pura (PT) com o candidato Wilson Cerqueira.  

Na entrevista falando sobre o perfil das eleitoras que Claudia Volpato encontrou durante a campanha eleitoral, disse “as eleitoras limeirenses não estão alertas, estão desanimadas. Sentem-se como se ninguém pudesse melhorar nada ao seu alcance, são mulheres cansadas. O acesso à informação é precária e não sabem o valor que isso tem. A maioria com quem tive contato apenas me ouvia, mesmo quando eu as questionava não respondiam, apenas faziam aceno mas, as que respondiam diziam que político é tudo igual, generalizando tanto homens quanto mulheres. As mais jovens estavam a procura de trabalho para ajudarem em casa e terem suas coisas também, sem se importarem com o futuro. Percebi, portanto, um eleitorado ainda sem confiança nas outras mulheres. Me preocupei muito mesmo”.

Discorrendo a respeito das políticas públicas vigentes no município de Limeira, referente a mulher, “temos somente uma Delegacia da Mulher, que a administração poderia interferir. Não temos uma Secretaria da Mulher, isso desempenharia um papel excelente, em vez de deixar a política para as mulheres somente à assistência social. Engraçado, fazem campanhas da saúde da mulher e do homem também mas, não tem médicos e mamógrafos para garantir a prevenção de doenças? Enfim, a mulher não tem condições do exercício de seus direitos. Não vejo outro local que atende a mulher, a não ser o Centro de Promoção Social Municipal (Ceprosom) e nem sempre tem as condições adequadas para atender todas as demandas das mulheres”, afirmou. 

Acompanhe a entrevista na íntegra;

D’Mulher: As mulheres estão mais presentes nas propagandas eleitorais. Não aparecem como protagonistas, mas como eleitoras, como aquelas cujo voto deve ser conquistado. A mulher é resistente ao voto feminino? A candidata mulher conquista o voto feminino pelo seu desempenho político ou pelos valores que representa?

Claudia Volpato: A mulher ainda está em segundo plano na política. É interessante mostrar a mulher como fazendo parte, porém, o exercício do protagonismo, por mais que queremos, não somos ouvidas, e sempre cortadas de suas falas, somos as mais impedidas de falar. Como candidata a vice que fui, em nenhum momento eu, como as outras, não fomos consideradas como candidatas num debate, exceto a “Ciranda de Roda” mas, feita de forma remota e não consegui ver as pessoas menos instruídas participar. Mesmo você tendo ajustado com o candidato à prefeitura os projetos, não somos ouvidas.

Infelizmente, ainda, a candidata feminina não conquista o voto pelo desempenho, nem pelos valores. A mulher é vista como aquela que tem que estar a serviço de voluntariado, a ajuda que ela faz e fatos como tais pois, na minha experiência, sempre trabalhei para a defesa dos direitos humanos em suas diversas áreas, tanto como professora, como advogada servindo à minoria, percebi que falando da minha pessoa e, também da Lívia (Lazaneo, outra candidata à prefeitura pelo PSOL), sofremos o preconceito por sermos mulheres mais contundentes, com o tipo de política que queríamos. Sem demonstrarmos aquela mulher do senso comum, creio que incomodamos os homens que debatiam e mesmo as outras candidatas.

Andei muito por essa cidade durante a eleição e, como as mulheres que estavam ali, ao meu lado, foram aquelas poucas de luta. Infelizmente, a mulher (para mim) tem que lutar uma vida toda para conquistar os seus espaços. E, percebo que as mulheres também incomodam mulheres, uma vez que você sai do padrão que ainda exigem das mulheres.

O que vi foram mulheres reclamando do prefeito, vi mulheres que não me ouviam, vi muitas mulheres que não iriam votar, vi mulheres que pediam o que precisavam, e percebi que haveria o grande número de abstenção de votos.

D’Mulher: O convite dos partidos às mulheres comporem chapa no papel de vice e também para cumprir cota é uma realidade. Qual é a sua opinião em relação ao desempenho das mulheres na política partidária? 

Claudia Volpato: No Partido dos Trabalhadores (PT) eu nunca vi isso, na sua maioria, mas deve ter candidatos que o façam. Com certeza os partidos na sua maioria faz, pois, vejo tantas pessoas que sequer saem de casa para fazer campanha. Quando aconteceu o evento do encontro das candidatas mulheres em Limeira, percebi as vices falando bem de seus candidatos mas, não falando de seus projetos.

A mulher, em relação ao desempenho da mulher na política, é (necessário) conseguir demonstrar a importância da mulher. No meu caso, creio que não consegui atingir, falar de fato com a mulher que desempenha outras atividades, como as professoras, como as donas de casa, como as mulheres trabalhadoras. Talvez eu tenha utilizado uma linguagem mais técnica, isso eu reconheço. É necessário conseguirmos atingir, o que de fato, as mulheres anseiam. A mulher quer alguém que fale e faça por ela pois, as mulheres precisam de mulheres que estejam ao lado dela, posto que as mulheres tem sido por demais calada. E claro, desempenhar o papel de que o cargo requer. Sei que incomodamos e é isso que continuarei fazendo para que as minorias sejam protegidas e detentora de seus direitos.

D’Mulher: As mulheres compunham, nas eleições de 2020, 52% do eleitorado, o que vem colocando mais uma vez a disputa pelo voto feminino como crucial na disputa eleitoral. Partindo de sua experiência na campanha eleitoral, defina o eleitorado feminino limeirense, seus anseios, condições econômica e social, e perspectivas quanto ao candidato em disputa. 

Claudia Volpato: Como talvez já tenha colocado anteriormente, Limeira ainda é uma cidade que frustra muita gente. Eu consegui perceber que as mulheres são as que trabalham, são quem mantém a família. Nossas eleitoras tem jornadas pesadas de trabalho, muitas não tem condições de estudar, de estar presentes nas decisões de conselhos populares. São mulheres que não tem acesso a informações de qualidade, muitas se apegam aos pastores ou pastoras de suas igrejas, às redes sociais onde confiam nas fake news. As eleitoras limeirenses não estão alertas, estão desanimadas, sentem-se como se ninguém pudesse melhorar nada ao seu alcance, são mulheres cansadas. Porque como disse, o acesso à informação é precária, e não sabem o valor que isso tem. A maioria com quem tive contato apenas me ouvia, mesmo quando eu as questionava não respondiam, apenas faziam aceno mas, as que respondiam diziam que político é tudo igual, generalizando tanto homens quanto mulheres. As mais jovens estavam a procura de trabalho para ajudarem em casa e terem suas coisas também, sem se importarem com o futuro. Percebi, portanto, um eleitorado ainda sem confiança nas outras mulheres. Me preocupei muito mesmo. Penso que tenho que buscar chamar as mulheres de limeirenses para saber o valor que tem, uma maioria em condições de pobreza e numa situação social em que os interesses são viver com pouco e apáticas, longe de entender o seu papel na sociedade. São pessoas descoladas da própria realidade, infelizmente, digo na sua maioria. 

Penso como é possível diminuir esse vale, construir pontes para que nossas mulheres estejam mais presentes nas decisões, tendo esperança e fazer nossa cidade ser melhor e contrariar as mulheres (vereadoras) que estão na Câmara Municipal de Limeira e, que nossa vice-prefeita reconheça que muitas de suas posições prejudicam esse eleitorado.

D’Mulher: Qual é o futuro que a Sra. vislumbra para o município de Limeira?

Claudia Volpato: Eu quero uma Limeira com qualidade de vida melhor. Quero uma Limeira onde as casas ou apartamentos populares não estejam nas margens do Centro da cidade, longe do trabalho das pessoas que ficam dependentes de várias conduções para chegar às escolas. Não quero refavelas para Limeira, que o poder público continue tirando as famílias pobres de um lugar ruim para oferecer uma moradia muito distante dos serviços públicos. Quero uma cidade em que as pessoas tenham uma saúde tal como ela deve ser, em que as escolas possam ter tempo integral e de qualidade até o Ensino Médio. Não quero uma cidade onde as reclamações sejam apenas sobre o mato, mas uma cidade em que a população participe das decisões da cidade, de seus bairros. Ter um serviço de transporte sem que o prefeito fique refém das empresas. Quero ver as pessoas com oportunidades de estudarem, de pessoas que não estudaram, estudem. Quero um prefeito que esteja com o povo, que utilize os centros de convivência com qualidade, não apenas fazer por fazer.

Quero uma Limeira segura. Quero uma cidade em que as culturas sejam respeitadas dando condições e lugares para acontecer sem incomodar o outro. Quero cultura nos bairros para que as crianças, os jovens exerçam suas vocações. Quero uma Limeira com a conservação da natureza, trabalhar com biodigestores nos bairros, não ver lixo jogado em barrancos de nossas águas, limpar nossos córregos e ribeirões, manter um código florestal da cidade, e dos animais. Discutir com o povo o que fazer, buscar formas corretas de cuidar trazendo novas experiências. Quero ver uma administração com cargos para os funcionários concursados, nada de carros oficiais e vale de tudo. Quero um orçamento participativo. Eu quero secretários que funcionem e nada de assessores, além dos funcionários das secretarias. Limeira pode ter subprefeituras para que as pessoas sejam atendidas com rapidez e poder ter um vice-prefeito (ou prefeita) que administre melhor os bairros. Quero uma Limeira mais justa e com um povo que esteja bem, ou seja, um bem viver.

D’Mulher: Estamos comemorando o Dia da Mulher, quais políticas públicas vigentes no município tem influenciado de forma positiva e de forma negativa a vida das mulheres? 

Claudia Volpato: Bem, o Dia da Mulher foi criado por conta de uma tragédia sofrida por mulheres.  As mulheres limeirenses também sofrem por falta dessas políticas públicas, as mulheres não tem acesso à sua saúde como um todo. Elas ficam dependentes de vagas nos postos de saúde, sem ter respeito ao horário marcado, esperando por horas. Não temos educação sexual às mulheres e adolescentes porque não podemos, por conta de uma política bolsonarista. Temos somente uma Delegacia da Mulher que a administração poderia interferir. Não temos uma Secretaria da Mulher, que desempenharia um papel excelente, em vez de deixar a política para as mulheres somente à assistência social.

Engraçado, fazem campanhas da saúde da mulher e do homem também mas, não tem médicos e mamógrafos para garantir a prevenção de doenças? Enfim, a mulher não tem condições do exercício de seus direitos, não vejo outro local que atende a mulher a não ser o Centro de Promoção Social Municipal (Ceprosom), nem sempre tem as condições adequadas para atender todas as demandas das mulheres. 

A Defensoria Pública não dá conta de intervir junto às mulheres que sofrem violência doméstica.

Eu creio, que ainda não exista um projeto que, de fato, funcione para as mulheres em nosso município, não há estímulo.

D’Mulher: Em 2020 a Sra. foi candidata ao cargo de vice-prefeita na chapa com Wilson Cerqueira para prefeito (ambos PT), com um resultado de 2,28% dos votos. Como define esse resultado, o que considera para terem conquistado essa porcentagem de votos?

Claudia Volpato: Sim. Como candidata, de pronto quando saíram os resultados das eleições, minha decepção foi grande. Fiquei brava porque eu pensei comigo, o que quer esse povo? Assim não vão pra frente. Hoje, tenho cuidado da minha saúde a qual não andou muito bem, mas não pense que a política não exala no meu sangue. Tenho muitas críticas ao que acontece nessa administração municipal, uma administração elitista. Quero voltar e percorrer os bairros de nossa cidade para conversar com as pessoas e elaborar melhor, pensar o que se tem a fazer em Limeira. Quero interferir em projetos sociais junto à administração, quanto aos vereadores no que diz respeito ao bem viver em Limeira

Considerações finais 

O que eu disse a vocês, até então, foi uma mistura de sentimentos e projetos para nossa cidade, que tem de tudo para ser melhor, menos elitista. Tudo pode ser feito, basta fazer e não usar de uma burocracia e posturas autoritárias, considerar atender a quem precisa. Amo a cidade onde nasci e vivi e aqui quero continuar a viver e, bem viver.

Como mulher que sou, tive que enfrentar preconceitos em certos lugares onde a predominância foram homens e, sempre venci. Assim, eu quero ver as mulheres enfrentando seus cansaços, seus obstáculos, tendo a coragem de tomar lugares que até então, a maioria são tomadas por homens.

Então, quando um dos filhos do presidente diz que mulher não pode isso ou aquilo, ele, como tantos outros, só esqueceram de quem o carregou no ventre, sentiu as dores do parto e ensinou tantas coisas, como não poder fazer isso ou aquilo? Fiquem certos de que a mulher pode estar no lugar em que ela quiser.

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