Vida Real; Maria José Zimbres – as mulheres fazem uma revolução silenciosa

Ao trazer a pauta “Vida real” para o D’Mulher, traço um único objetivo: a mulher é importante pela sua própria história de vida e trajetória na sociedade, não tenho o interesse de repetir aqui o equívoco de escrever sobre as mulheres à partir do nível social e ou profissional. Parto do princípio de que as histórias de vida das mulheres geram conhecimento, compreensão e conexão entre pessoas e grupos, pois, as histórias de vida são uma ferramenta de transformação social. Ao ler histórias reais de vida, surgem inspirações, empatia, sentimentos de identificação da própria trajetória.

Conversamos por telefone numa noite dessas eu e a Maria José Zimbres, depois de alguns anos de ter visitado a sua casa quando eu acompanhava a apresentação da Folia de Reis São Lucas. Mas nunca havíamos conversado de fato. Maria José passou a ser minha amiga na rede social e um dia eu enviei o pdf do Jornal Pires Rural a ela e pedi para me adicionar na sua lista de  contatos de telefone. A partir daí trocamos mensagens rápidas, áudio de moda de viola raiz, imagens de paisagens do Brasil rural, e até descobrimos um vizinho em comum. 

Na ligação, faço a sugestão de uma possível chamada de vídeo. Maria José, você quer conversar me vendo? Não, prefiro assim, ligação (risos). Tudo bem, eu não estou em casa, vim trazer a minha filha na faculdade, enquanto espero, conversamos. Repeti a ela o motivo da minha escolha pelo seu depoimento para a minha pauta: eu quero conversar com mulheres que passam pelo envelhecimento dando importância a vida, que tiram de letra esse assunto através da autoestima.

Nascida em Lagoa Branca, distrito de Casa Branca (SP), uma cidade pequena, pacata, com valores tradicionais numa região agrícola. Casou-se e mudou para as cidades de São Carlos (SP), São Caetano do Sul (SP), Santa Bárbara D’Oeste até chegar em Limeira, onde, acompanhando as mudanças de trabalho do marido, permanece até hoje. Mãe de quatro homens e uma mulher. Casei aos 18 anos, aos 19 anos mudamos pra São Carlos. Eu não conhecia nada, uma cidade boa, o meu marido dava aulas na Industrial. Eu faço amizades muito fácil com a vizinhança. Eu sou alegre (risos). Não tem mau humor comigo não (mais risos). 

O que lhe tira do sério? Se cair alguma coisa das minhas mãos e eu tiver que agachar pra pegar (risos). É isso aí! Caiu! Ai meu Deus (risos). Mas não xingo não. A vida da gente tem problemas. Sim, temos problemas, mas tudo depende de como os encaramos, não é? Em São Carlos, eu fiz amizades, a minha vizinha acabou sendo a minha comadre. Em São Caetano, morei, vim embora e acabou. Em Santa Bárbara, eu fiz amigos. Em Limeira, eu tenho muitas amizades, nossa! Eu adoro Limeira!

Lá na sua adolescência, na sua educação qual era a sua visão de pessoas mais velhas? Você foi capaz de acompanhar muitas mudanças que ocorreram na sociedade. Eu não sou idosa nada (risos)! 

 

Maria José Zimbre

 

É esse assunto que quero tocar, o fato de que hoje, as pessoas não aceitam mais rótulos? Pra mim, eu tenho 25 anos (risos). Eu adoro os meus cabelos brancos depois que deixei de pintar. Eu sempre gostei. O meu cabelo é lindo (risos)!

Ao olhar pra você a gente percebe que você se cuida, que tem autoestima. Ah! Eu tenho mesmo. Então, me conta das suas vaidades? São fases na vida da gente, mas eu jamais ia imaginar que eu chegaria a essa idade tão bem, Adriana! Bem resolvida. Porque, quando a gente é jovem, já viu né! Naquela época, tudo era vergonha do que os outros iam falar. Hoje, eu faço o que eu quero e ensinei os meus filhos serem assim. Só que eu não gosto que filho venha me dar pitaco. Eu participo da Folia de Reis, toco instrumento agogô e estou tentando aprender tocar violão, é difícil. E adoro passear, bater pernas.

E o que mais você tem feito de uns anos pra cá, que jamais passou pela sua cabeça fazer? Faço os meus exercícios, canto – nesses dois anos da pandemia está sendo difícil porque estou acostumada sair, passear. Eu tive uma infância muito boa, feliz, meus pais maravilhosos. Mãe mais bravinha, pai um anjo; eu sinto muito a sua falta. Ele era aquele que chegava, colocava a gente (quando pequenos) no colo quando ia almoçar, servia a gente. No fim de semana ele nos dava um dinheirinho, mas eu era tão compreensiva que quando ele ia me dar um dinheirinho eu falava, não pai. Porque eu sabia que era pobre, poxa! 

Eu entendo você. Mesmo a vida sendo dura, existia muito amor, e a dureza da vida não corroía o amor dos filhos pelos pais. 

Sabe Adriana, quando chegava o final do ano eu colocava o sapatinho na janela com um pouco de grama. Você imagina que eu não ficava frustrada e não perguntava por que? Eu sabia que era tudo pobre e não dava pra comprar pra sete filhos. Eu ganhava (presente) da minha madrinha (risos). 

Criar quatro homens não é pra qualquer um, hein? Não, não, não. Eu comento aqui em casa, porque a gente conversa muito, damos muitas risadas. Vamos falar. Antigamente, todas as crianças brincavam na rua. A rua fervia (de crianças). Eu deixava. Eu colocava shorts na minha filha, ela brincava com os meninos. 

E não tinha aquela coisa, só vai sair se for com os seus irmãos? Não. É a única menina e, a que saia mais. Os irmãos não tinham ciúmes dela? Não. Eu tinha que confiar nela. Eu falava, olha, você pode ir, mas se eu souber, não terá a segunda vez. Eu era firme. Tudo bem contar pra gente, né Adriana? Quando ela começou namorar, eu expliquei sobre sexo pra ela: olha, eu não vou dizer que você não vai aprontar, porque vai. Mas, se cuida. E não é ruim não, eu falei. É muito bom, mas se cuida. Tem que ter responsabilidade, cuidado. Quando ia nos bailinhos, naquela época, já tem 43 anos, eu já falava pra ela: cuidado, não beba nada no copo dos outros. Eu já falava. 

A minha vida foi simples, meu pai ensinou a gente a ser honesto, né! A primeira coisa, honrar o nome, né Maria José? É isso o que eu falo, gente, a única coisa que a gente tem é o nome, não suja muito (risos). Cuidado, se sujar o nome, acabou hein! (risos). Acabou, nós não somos políticos não. Mas a vida foi tranquila, passa tudo rápido, muito rápido. O que tiver que fazer, faça, vai passear, se tiver vontade de comer as coisas, coma. 

Conte sobre o lado bom do envelhecimento, hoje nós temos muitos recursos disponíveis, tão diferente da época das nossas avós que padeciam por doenças que hoje são passíveis de cura. A mulher sofre, né Adriana! A mulher sofre. E com as dores, a gente acostuma. Eu falo, o que passou muito rápido foi dos 40 anos até essa idade, passa rápido. Sabe que muitos falam isso mesmo. 

As suas amigas falam isso também? Sim. Nós, aqui, passamos por problemas com o meu marido, quando os filhos eram crianças, então, eles amadurecem na lata. Foi muito dura essa fase, mas passou. Foi um crescimento, né. Um aprendizado. Eu falo, gente, sempre tem que ter uma religião. Eu falo para o meu neto: se você não souber rezar Lorenzo, vai lá no seu coração pedir. 

Você é religiosa? Eu sou cristã, sou espírita. Desde sempre? Desde a minha mãe, já era (espírita). Depois que eu vim pra Limeira, e as crianças estavam maior, aí eu comecei a frequentar. Agora eu estou afastada por causa da pandemia. Adriana, religião é caridade. Eu não julgo. Comentar a gente comenta, não adianta falar que não. Falar mal não, não. A gente segue uma religião sim, tem fé, isso ajuda muito. Sim, ajuda, porque a caminhada não é leve Maria José. Não, não é não. E a mulecadinha de hoje não acredita. Mas depois que pega uma idadinha (risos). Antigamente, era mais fácil porque os pais levavam. Eu tentei levar, mas não obrigava. Não obrigo a nada. Levei os meninos pra fazer o catecismo mas, não foram não. Pelo menos veem que a mãe tem os santinhos aqui, a gente pede muito, a gente fala; mas não obrigo não, faz o que você quiser. 

Como é lidar com as perdas, não só de amigos, familiares, mas a perda da juventude, do corpo; são perdas, é natural? Isso ai é natural. Mas eu nunca liguei pra isso não. Não? Eu compro creme, passo a primeira vez, segunda, terceira, aí eu paro. Agora que eu estou passando, de vez em quando, o óleo de coco no rosto. O creme no corpo eu passo sim. Não gosto de me maquiar, só uso blush, lápis nos olhos e batom. Eu não ligo pra nada, Adriana. Nada, mas se mexerem nos meus batons (risos), eu tenho um monte. E bijuterias eu tenho aos montes, mas o que eu mais gosto são das pérolas. Eu gosto de andar descalça. Eu gosto de arroz e feijão e como frutas o dia todo. Eu tomo sol porque tem que tomar, né. Tomo sol, durmo bem. Isso é tudo, dormir bem. É o melhor remédio, tomar água, dormir e ouvir música. O meu rádio é ligado dia e noite. Eu não assisto televisão. Já assisti! Eu gosto de ouvir música caipira porque a melhor época foi a minha, dos anos 50. Eu assistia os Festivais de San Remo, os Festivais da Record, a gente não perdia. A televisão era horrorosa para pegar, tinha que colocar palha de aço para melhorar a transmissão (risos). Os cantores e compositores bons estão aí, até hoje sendo ouvidos. Adriana, a gente precisa conversar pessoalmente, aí vamos conversar o dia inteiro (risos). 

 

Maria José Zimbres e seu filho Reginaldo

 

Meus filhos falam: “qualquer hora vou ligar o gravador e tudo o que você lembrar, você vai falando pra nós”. A minha filha fala: “mãe, eu estou com uma saudade daquele tempo”. Eu falo, que tempo? Do tempo que você fala (risos)”. É Lagoa Branca que eu nasci, só que se falar o nome ninguém vai saber onde é, então, a gente fala Casa Branca, porque nasci no distrito. Aos domingos, as moças iam ver o trem passar. Lá tinha o jornaleiro porque o trem trazia a revista almanaque de fotonovela Capricho, uma comprava e repassava para todas lerem. 

E você se correspondia por cartas? Com o meu marido sim, eu tenho as cartas até hoje. Eu morava lá em Casa Branca e ele trabalhava, dava aulas em São Paulo, em Ribeirão Preto e me correspondia por cartas, isso em 1966. 

E como vocês se conheceram? Ele morava na esquina da minha casa. E eu gosto de homens mais velhos e antigamente ele dava aulas de terno e vestia um jaleco por cima. Até hoje eu gosto de homens elegantes. 

Que fase, nós mulheres estamos vivendo, na sua visão? Nós vivemos no nosso mundinho aqui, mas a coisa é feia (para as mulheres). Eu não sei o que está acontecendo com essas agressões que aumentaram. As mulheres tem que trabalhar, estudar e não depender dos homens não. Aqui eu recebo o meu (salário) e os meus filhos me ajudam, tenho filhos maravilhosos, sou tratada como uma princesa. Mas, Adriana, a gente precisa conversar pessoalmente, nós nem falamos sobre o envelhecimento (risos). 

1 comentário sobre “Vida Real; Maria José Zimbres – as mulheres fazem uma revolução silenciosa”

  1. Que reportagem maravilhosa, de uma grande mulher de uma vida simples, mas que sabes aproveitar a vida de forma leve e feliz sua história de vida ,será fonte de inspiração para seus filhos e a quem os conhecem. Que beleza! Parabéns MULHER .

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