A voz feminina na literatura

    Artigo de Adriana Mercuri, Formada em letras pela UNAR, trabalhou 36 anos como professora de gramática e literatura no ensino fundamental, médio e curso pré-vestibular

“HOUVE um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.” Esse é o início do texto “A arte de ser feliz”, escrito por Cecília Meireles, escritora brasileira da segunda geração modernista, que compreende os anos de 1930 a 1945. 

Quando falamos em Literatura, é muito importante que saibamos que ela sempre esteve ligada intimamente à História, pois os escritores refletem os costumes, a linguagem, a problemática de seu tempo. Por isso, é sempre interessante, antes de começar a ler qualquer livro, saber não só as características do escritor, como também sua linguagem e a época em que foi escrito. Essa contextualização nos permite situar a história e, principalmente, entender como se dá o comportamento das personagens e qual seria a mensagem que o autor está nos tentando passar. Os maiores escritores são reconhecidos pela universalidade de sua obra, ou seja, eles podem ser lidos em qualquer época que serão atuais. É assim que Camões nunca será esquecido com seu “Amor é fogo que arde sem se ver/ é ferida que dói e não se sente” ou até mesmo com “Os bons vi sempre passar/ No Mundo graves tormentos/ E para mais me espantar/ Os maus vi sempre nadar/ Em mar de contentamentos.”, quer mais atual que isso? 

Em se tratando do universo feminino, a História foi um pouco diferente. Nem sempre as mulheres tiveram espaço numa sociedade patriarcal, em que eram vistas como um ser que nasceu apenas para cuidar da casa e da família, uma minoria era alfabetizada ou poderia seguir uma carreira profissional. Sempre houve as escritoras que burlavam as regras, mas nunca foram tão reconhecidas em seu tempo como os homens.  Até hoje, muitas delas usam certas estratégias, como nomes sem gênero ou iniciais seguidas de um sobrenome, para evitar ideias pré-concebidas sobre suas obras. Mesmo autoras de best-sellers, como J.K. Rowling (Harry Potter), E.L. James (50 tons de cinza) e Gillian Flynn (Garota exemplar) acreditam que as vendas dos seus livros serão melhores caso mantenham uma identidade neutra. A “estratégia” não é de agora, até meados do século XX, muitas escritoras e artistas preferiam (ou eram forçadas a) assinar suas obras com nomes neutros ou masculinos.

 

“Úrsula”, 1859, Maria Firmina dos Reis – “Minha vida de menina”, de Helena Morley – “A hora da estrela”, Clarice Lispector

 

Com a publicação de “Úrsula” em 1859, primeiro romance abolicionista de nossas letras, Maria Firmina dos Reis se inscreve como pioneira e precursora da literatura negra que iria despontar no século XX.  A escritora é um exemplo de mulher afro-brasileira que teve acesso à educação no século XIX. Esquecida por décadas, nos últimos anos tem atraído o interesse de pesquisadores da área. Outra escritora negra considerada uma das mais relevantes para a literatura nacional é Carolina Maria de Jesus, com textos publicados no Brasil e em mais de 40 países. Favelada e catadora de papel, teve sua vida atravessada pela miséria e pela fome, narrou em seus escritos o cotidiano periférico não somente como tema, mas como maneira de olhar para a cidade e para si mesma. 

 

“Quarto de despejo”, Carolina Maria de Jesus, narrou em seus escritos o cotidiano periférico

 

Os nomes femininos só aparecem nos livros escolares de literatura a partir do Modernismo, escola literária cujo marco foi a Semana de Arte Moderna de 1922. Só então pudemos apreciar os escritos de Cecília Meireles, Raquel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst, Cora Coralina, Adélia Prado, Clarice Lispector e tantas outras. 

Recentemente, tivemos o livro Minha vida de menina, de Helena Morley (pseudônimo), incluído nos vestibulares. O livro é um diário escrito quando a autora era adolescente, entre 1893 e 1895, pouco depois da abolição do sistema escravista e da proclamação da República, numa época em que a “moda” era escrever de maneira rebuscada, por isso o livro seria considerado fora dos padrões. Já, quando foi publicado em 1942, dentro do Modernismo, que prega a linguagem mais livre, fez muito sucesso. 

Clarice Lispector, considerada uma das maiores escritoras brasileiras, nasceu na Ucrânia e chegou ao Brasil ainda bebê, em 1922, com sua família, que fugia devido à perseguição aos judeus depois da Revolução Russa de 1917. Comparada a Virgínia Woolf e James Joyce, possui um estilo bem diferente e não é de fácil leitura. Seus romances e contos são centrados em personagens femininas, que passam por um tipo de transformação, a epifania. Há um voltar-se para dentro de si, para a experiência interior, para o impacto das coisas no mundo e, refletindo tudo isso, a linguagem se torna uma mistura de prosa e poesia. 

Escrever não é apenas se doar, é compartilhar ideias, é expressar angústias, alegrias, enfim, toda espécie de sentimento. Cecília Meireles pode estar ausente deste mundo há muito tempo, mas seus escritos jamais serão esquecidos: “Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim” (trecho final de A arte de ser feliz).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *