A menina da Escola Rural Carandina à Dra. da Esalq/USP

Roseli Teresinha Paes Barbosa Borges é engenheira agrônoma, Mestre em ‘Efeitos do gene Lg3 em características agronômicas do milho (Zea mays L.), Doutora com a tese sobre ‘Método de seleção em milho para resistência ao vírus da risca – fitoplasma – espiroplasma’; defendida na Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz, Esalq/USP. 

Dra. Roseli é a quarta geração na propriedade familiar de seu bisavô Davi Paes, português, trabalhava de caixeiro viajante fazendo o transporte de tropa do Porto de Santos, SP, até Limeira, SP. O bisavô adquiriu a terra em Limeira no início do século XIX. A família se consolidou na propriedade através da herança da avó Maria Bueno do Prado. Sua família materna Bagnoli e Soares também traz a tradição da agricultura.

“O meu bisavô teve onze filhos, era muita gente e era muita terra também, a propriedade tinha divisas com a propriedade da Usina Ester e com a fazenda Botafogo. A propriedade onde eu resido é herança da minha avó. Meu avô, faleceu quando eu tinha seis anos de idade. No local foram construídas novas casas, na década de 1930, porque a sede do meu bisavô, na divisão, ficou com outros herdeiros”, contou. 

A propriedade passou pelos ciclos do café e do algodão. “Da infância a gente observava a produção de cultura de subsistência, como o arroz com regime de meeiro – as famílias que moravam na propriedade tinham o contrato de parceria. Depois mudou o sistema de trabalho para CLT passando pela citricultura, a cana-de-açúcar, a pecuária sempre permaneceu. Mais recentemente tem a atividade do Fernando (esposo) com o desenvolvimento de cultivar de milho”, disse.

 

Alunos da Escola rural Carandina
Escola rural Carandina – Roseli é a terceira da direita para esquerda, em pé.

 

Sua alfabetização foi na Escola Rural Carandina, uma escola mista, com duas salas de aula de primeira e segunda série, de terceira e quarta série. O professor Adrien se dividia com o conteúdo para dar conta das duas séries juntas. A partir da quinta série foi estudar na cidade de Limeira, no Colégio São José, uma escola particular e religiosa; viajava todos os dias de transporte intermunicipal (Limeira/Cosmópolis, SP).

“Mais tarde eu comecei entender que com dez anos eu comecei a sentir os efeitos do gênero, sem entender direito. Por que na época, o Colégio São José não admitia meninos. Só meninas estudavam no Colégio. Eu acabei tendo autorização para estudar em Colégio que só admitia meninas. Eu só tive autorização dos meus pais para fazer o curso técnico Magistério, eu poderia estudar, se fosse professora. A referência que a família tinha de formação acadêmica pra mulher era o Magistério. Eu acabei fazendo, eu tenho especialização em pré-escola e após a conclusão (início dos anos 1980) eu podia fazer qualquer outro curso superior. Foram oito anos viajando. A gente (os pais) tinha um acordo com o Colégio para eu almoçar junto com as irmãs antes de retornar com o ônibus de linha”, contou. 

Roseli se envolvia muito pouco com as atividades da propriedade. A mãe sempre dedicada ao lar, o pai, um médio produtor, de uma postura patronal. A menina aprendeu desde sempre a reconhecer a postura política do avô Antonio Paes Barbosa (conhecido como Totó Davi), de uma época que existia a função comunitária de ‘inspetor de quarteirão’, a função tratava de manter sitiantes interlocutores do bairro com o Poder Executivo. “É através da formação que você vai voltando o olhar para outros temas, pra valores, pra acreditar que você pode mudar algo ao seu redor; eu vivi um pouco disso. Eu tenho um (único) irmão, eu acho que a gente viveu isso a vida toda, de participação, de defesa de direitos; eu penso que isso sempre esteve presente nas discussões da família -, mesmo que seja para se posicionar contra, mas acaba contribuindo para a formação (política), sem dúvida”, disse. 

A escolha do curso universitário foi simples mas a ingressão no curso envolveu decisões impostas pela família. “Eu tinha maior afinidade com a área de exatas e queria desenvolver alguma coisa na área de exatas e biológicas; eu acabei chegando na Agronomia. A escolha da Agronomia veio pela amplitude que o curso oferece, foi onde eu acabei me encontrando. A minha ideia inicial era partir para a pesquisa, eu fiz mestrado e doutorado em genética e melhoramento.  A discussão sobre a escolha, em casa, foi tensa porque tinha a questão de que eu só poderia fazer o curso universitário se fosse em Piracicaba, SP, porque ainda se imaginava que eu poderia viajar todos os dias, pela proximidade”, contou.

Roseli passou no vestibular da Unesp em Jaboticabal, SP, e na Esalq-USP, em Piracicaba. “Em Jaboticabal, eu não poderia ir de forma alguma. Em Piracicaba, eu tive a permissão desde que eu viajasse todos os dias. Cheguei a viajar um ou dois meses aí eu me rebelei de vez: eu vou me estabelecer lá”, disse. 

O pai tinha orgulho da filha mas ao mesmo tempo uma dificuldade muito grande de permitir que ela participasse da gestão da propriedade. “Ele me ouvia mas, a decisão era dele então, não teve muitas mudanças. Eu acabei assumindo a gestão há cinco anos quando o pai já não dava mais conta”, contou.

Conheceu o marido Fernando Borges, na Esalq/USP, ele veio de Bom Jesus, RS, para fazer o mestrado na universidade, na mesma época. Quando terminou o mestrado, retornou. “Namoramos por cinco anos. Quando eu estava no final do doutorado a gente se casou. Em dois anos de casamento tivemos dois filhos, o Tiago e o Mateus, eu fiquei uns cinco anos sem trabalhar, isso estava me incomodando um pouco. Eu trabalhei um ano e meio numa ONG com projetos sociais. No final de 2001, eu passei no concurso da Prefeitura de Artur Nogueira, SP, conveniada com a Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável, CDRS (antiga Cati)”, disse.

Assumir a propriedade da família é algo muito simbólico, representativo, forte. Roseli assumiu a propriedade herança da avó, que na divisão era menor de idade e acabou ficando com o que sobrou das demais divisões. “Eu vejo que a gente ainda está no período de transição, de procurar manter as mesmas cadeias produtivas, como a pecuária, de manter a cana-de-açúcar; de planejar o que está estabelecido e estruturado para melhorar, em diversidade de uma nova atividade. Estamos nessa fase de planejamento do próprio manejo daquilo que já existe”, contou. 

A mulher a frente da gestão que traz a marca forte da tradição familiar, valores que falam por si, muitas vezes se impõe diante das decisões. “São os desafios que às vezes acaba sendo mais difícil você enfrentar. Por vezes, eu fico olhando para trás, eu vejo o êxodo escolar (da Escola Carandina), analiso a minha turma, lá da escola mista, vejo que quem chegou mais longe, chegou no ensino médio. As pessoas foram saindo da escola, entendeu? A maioria dos alunos da escola mista ficaram na quarta série porque teve uma peneira do ensino fundamental, porque teve outra peneira no ensino médio e ninguém foi para o ensino superior. Diante dessa análise enxergo também como é que eu fui tomando as decisões perseverando e conciliando as escolhas que envolve a família, envolvendo a área profissional”, disse.

 

alunas do Colégio São José, posam sentadas na escadaria da escola juntamente com as freias
Colégio São José, cerca de 1983

Em 2006, ela tentou voltar para a pesquisa, passou no concurso de ‘Pesquisador 4’, na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Embrapa. “Só que eu tinha pensado numa unidade mais próxima (de Limeira), não deu certo; eles me chamaram para assumir uma vaga em Irecê, BA, e aí não deu. Não deu, entendeu? A gente acaba pondo na balança mais coisas. É a educação dos filhos, é a saúde do (filho) Mateus, os pais já idosos, eu não tive coragem. A Embrapa me deu bastante tempo, dando abertura para eu passar pelo exame admissional em Campinas, SP. E aí eu tinha que me apresentar lá na unidade em Irecê, eu não tive coragem de ir, acabei optando e priorizando a proximidade com a família, a facilidade do atendimento médico do Mateus com a equipe que já atendia ele aqui”, contou. 

“Eu fiquei. Eu fui me apegando com a extensão rural oportunizada pelo trabalho na Casa da Agricultura, foi uma época que tivemos os projetos com as mulheres agricultoras então, o próprio envolvimento com os grupos daqui contribuiu também para que eu tomasse essa decisão. Eu defini: o que eu quero é trabalhar com a extensão rural, com gente; tanto que hoje há um esforço para aproximar a pesquisa do trabalhador através do trabalho na rede, da parceria com o Instituto Agronômico de Campinas, IAC -, pra tentar fazer essa ponte de trazer uma pesquisa mais aplicada”, afirmou. 

Roseli toca no assunto da escolha, “eu não sei se é de gênero essa questão. Eu acho que o gênero traz essa dificuldade da própria gestão da propriedade, se, de repente, eu fosse um homem talvez eu tivesse uma participação mais ativa aqui. Eu fui ter uma participação mais ativa agora, no momento que o meu pai de fato não deu mais conta. A mulher precisa se impor mais, trata-se de uma luta para conseguir impor toda a competência igual que acaba tendo. Não existe diferença. Mas é excluída até na própria questão da sucessão, como eu estava dizendo, aqui é a herança da minha avó Maria Bueno do Prado, quando os meus bisavós faleceram ela era de menor, em função da idade, ela recebeu ou ficou com o que sobrou da divisão. Como a mulher é deixada, ela tem que estar sempre brigando para ter o seu espaço”, destacou. 

Despir-se de tudo o que colocaram nos ombros das mulheres é um processo. Dentro desse processo as mulheres tem se dado oportunidades de escolhas, e, poder escolher é parte de um processo avançado na luta por direitos iguais entre homens e mulheres. “É fato. É necessário não perder o foco para saber ver as próprias escolhas. Na minha adolescência, eu fui estigmatizada na minha própria família por escolher estudar. As minhas primas não estudaram e eu era considerada uma má companhia para elas porque eu trazia ideias que não era o que vinha sendo construído na formação delas. Eu me casei com 30 anos de idade porque eu não priorizava o casamento, eu sempre priorizei a minha formação profissional. A partir do momento que fazemos escolhas e brigamos por elas há um custo a ser pago. Os tios afastavam as minhas primas de mim para que eu não passasse as minhas ideias da posição da mulher para elas. Se eu tivesse desistido, eu tinha parado os estudos no ensino primário e teria me casado aos 17 anos, o que seria o normal para a época no conceito cultural da família”, contou. 

A mulher que tem foco, faz escolhas, mantém-se perseverante, traz na formação o posicionamento político da própria família e faz uso desse capital para ocupar o lugar de liderança. Chegou o momento de ocupar o seu lugar de direto(s). Roseli como tantas outras mulheres que foram testadas por um processo histórico marcado pela negação da capacidade da mulher agora, podem ser coroadas pelo protagonismo da sua própria história. “O posicionamento de brigar por aquilo que eu acredito, mesmo que seja o contrário da formação política da própria família, me deu a consciência de que eu posso ‘brigar’ por aquilo que eu acredito”, concluiu.

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