O Lockdown em Araraquara

A cidade de Araraquara, SP, foi uma das primeira cidades do Estado a apresentar o colapso no número de internações demandadas pela pandemia da Covid-19, em 2021. Na segunda semana de fevereiro de 2021, o município contabilizava entre 180 e 200 infectados por dia. Diante desse cenário, foi decretado o primeiro lockdown a pedido, de um município no Estado de São Paulo. 

A partir de 20 de fevereiro de 2021 todos os serviços que não tinham a ver com o sistema de saúde foram totalmente suspensos, incluindo transporte público e supermercados, atendendo apenas pelo sistema delivery. 

O Estado de São Paulo está enfrentando o pior momento da pandemia desde marco de 2020. O número de pessoas infectadas e óbitos vem aumentando assustadoramente. Conversamos com Fátima Ribeiro, limeirense, analista contábil na empresa Hyunday-Rotem, ela passou a infância no bairro rural dos Frades, reside em Araraquara há 23 anos. Casada com Arlindo, empresário do ramo de caldearia e montagem, mãe de duas filhas jovens, estudantes, universitária e no ensino médio. 

“Nesse um ano de pandemia a gente tinha uma estrutura de vida assim; eu tenho uma filha que estuda Design de Moda em Londrina, PR, ela voltou pra casa, começou estudar em casa. E a minha filha caçula faz o ensino médio, também estuda em casa. Emocionalmente isso refletiu de forma negativa na vida delas. Eu imagino que muitas crianças estão nesta mesma situação. E, na nossa família temos a minha sogra de 83 anos — já recebeu a primeira dose da vacina. Há um ano atrás nós conversamos, como é que nós íamos deixar de participar da vida dela por causa da pandemia? Diante disso nós adotamos todas as medidas de higiene e não deixamos de visitá-la durante esse período todo”, relata Fátima e emenda, “eu trabalho fora, meu marido toca a empresa há mais de 30 anos. No início da pandemia eu fiquei trabalhando em casa por um período de seis meses. A empresa que eu trabalho atende a frota de trens e metrô da CPTM, que foram reduzidas – pra mim o maior erro nessa pandemia, porque o que dissemina o vírus é o transporte público. Depois começaram todas as restruturações na empresa, com as demissões no início da pandemia. Eu trabalhei seis meses em casa para que a empresa conseguisse manter um quadro de funcionários considerado o efetivo, em redução de jornada e consequentemente a redução de salário. Foram feitas muitas adequações para poder passar por esse período. Todos nós tínhamos esperança de que fosse passar logo”, ela disse.

Confinamento

Em fevereiro, o número de óbitos cresceu muito em Araraquara. Segundo Fátima, o lockdown pegou todos de surpresa. “Numa sexta-feira, no início da tarde, a cidade estava em pânico porque vazou a informação do lockdown. Todos os supermercados começaram a ficar lotados porque permaneceriam fechados. De fato, todos foram fechados atendendo apenas pelo delivery por uma semana. O que assustou ainda mais, foi acontecer o lockdown na semana do pagamento, o dia 20 quando acontece o adiantamento de salário dos trabalhadores. As pessoas têm os seus costumes de fazer as compras em períodos mensais ou quinzenal, receberam o salário e foram todos para os supermercados causando tumulto e aglomerações. Nós e muitas outras pessoas fomos para a cidade de São Carlos, SP, fazer as compra para não participar da aglomeração”, contou Fátima. 

Todos os serviços foram fechados, exceto os serviços de saúde. “Eu trabalhei durante o período de lockdown, porque eu já estava trabalhando em casa, novamente. A fábrica parou por uma semana. De março a setembro de 2020, eu fiquei trabalhando de casa. De setembro a fevereiro de 2021, eu voltei presencialmente para a empresa. As pessoas que entrassem em redução de jornada de trabalho iam ficando em casa. Os que não, permaneceriam na empresa. O meu marido parou de trabalhar somente durante o lockdown, na pandemia”, comenta. 

As vidas perdidas para a pandemia tem nomes e embora Fátima não tenha perdido um ente querido, ela presenciou o sofrimento de uma pessoa que não chegou a conhecer. “Eu sofri muito a morte de uma pessoa que eu nem conheci, trata-se do primo da minha amiga. O sofrimento é por tudo o que aconteceu com ele e a família. Ele ia atrás de atendimento e precisou voltar três vezes para receber o tratamento. Não deu mais tempo de salvar a vida dele. Deixou a viúva jovem e três filhos. O que eles passaram quase 300 mil pessoas também estão sofrendo”, frisou Fátima.

Depois do lockdown 

Fátima tinha ouvido falar que a pandemia seria uma experiência que ia nos tornar pessoas melhores. Ela não concorda, mesmo tendo vivido momentos difíceis num município que tomou medidas radicais para conter a disseminação da Covid-19. “Não é verdade. Eu fico muito triste porque as pessoas tem muitos conflitos de informações, são muitas mortes reveladas. Acho que tem muito julgamento (por parte das pessoas) sobre o que você faz mas, não vê o que ela faz. Não há discernimento. Se não tiver uma cabeça boa, corre-se o risco de ficar doente e começa a ter alucinações e tentativas de suicídios, como tivemos um caso nesta semana na cidade”, disse. 

Manter o discernimento diante de uma pandemia que traz como consequências as perdas de vida, incluindo entes queridos, além das perdas da rotina, da liberdade, do lazer, manter a saúde mental é um exercício de adaptação entre altos e baixos. A saúde mental também tem colocado a vida de muita pessoas em risco. “Eu busco forças na minha história de vida”, revela Fátima. 

Sua história de vida é marcada pela compaixão, amor e solidariedade. Fátima foi adotada aos três meses de vida por seus padrinhos de batismo, João e Vicentina Ribeiro (in memorian). “Eu sempre tive um respeito muito grande pela minha família. Toda a dificuldade que eu tenho, eu busco força na memória e valores que eu tenho deles e também sou muito religiosa. Diante da memória da minha história eu digo, vamos levantar e seguir”, afirmou Fátima.

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