A morte de um filho na vida de uma mãe

Vida Real – Mês das Mães

Neide Hertz perdeu o filho César, repentinamente, em outubro de 2018, entrevistei a mãe, por telefone, para conversar sobre ‘a morte de um filho na vida de uma mãe’. O assunto é difícil, doloroso pois, a dor do assunto revela uma mulher-mãe de luto, com depressão, dilacerada. “No dia das mães, eu passei com os meus filhos mas, faltou ele. Eu vesti a camiseta com a foto dele, a sua blusa de frio. Eu amo os meus filhos, mas faltou um, faltou todos. No momento que o meu filho morreu, eu morri junto com ele. Minha vida acabou. É uma dor insuportável. O filho pode ser bandido, pode ser traficante, pode ser o que for, mas é o seu sangue”, disse a mãe.

 

Neide e seu filho César

 

O aumento da violência e a exposição dos nossos jovens frente a guerra às drogas causam em nosso país, tem resultado no alto índice de mortalidade dos mesmos, esses dados tem marcado as famílias pela perda inesperada de um filho. Os filhos representam para os pais a perspectiva de um futuro, simbolicamente, a perpetuação de seus genes. A morte traz para o ser humano a avaliação do sentido da vida e do existir. Não estamos aptos a lidar, estudar e até mesmo discutir sobre a morte. Culturalmente é esperado que os filhos velassem os pais, como uma ordem cronológica dos fatos da vida. Quando o contrário ocorre há uma comoção, uma grande dificuldade de compreensão para a mãe que carrega em si a sensação de que o filho é parte dela e, consequentemente sua morte representaria a perda de um fragmento do seu corpo.

De volta a Limeira
A família de Neide tem raízes na área rural de Limeira, depois de casar-se com César, seu primeiro marido, foi viver em São Paulo, perto da sogra pois, o marido trabalhava com a mãe. Nasceram as filhas Ana Paula e Bárbara, quando estava grávida do terceiro filho, retornou à casa dos pais, em Limeira, juntamente com as duas meninas, para fazer as consultas de pré-natal; era certo que depois do nascimento da criança ela voltaria a capital.
Era 1998, vinte anos atrás, havia muita dificuldade para as mulheres conseguirem uma consulta, com um ginecologista, na rede pública de saúde e, nas contas de Neide o bebê nasceria dentro de poucos meses. Ela conseguiu passar pela consulta, ouvir os batimentos cardíacos do bebê, fazer o exame de sangue – mas o resultado só chegou depois que a criança nasceu.
Dia 5 de setembro, ela foi para a cidade de Artur Nogueira levar a filha Bárbara ao médico pois, a menina estava doente, com febre. Quando voltou foi até o estabelecimento comercial do bairro dos Frades, o ‘Bar do Tigela’, o único lugar que dispunha de um telefone, onde ela poderia entrar em contato com o marido, que ficou na capital. “Eu usava o telefone no ‘Bar do Tigela’ e quando a Marli recebia a conta, eu pagava as minhas ligações. Quando eu desci do ônibus e tentei ligar para o César, ele estava tentando ligar pra mim, no mesmo instante! A ligação dava sinal de ocupado, era 12:30. Ao sair do bar, ouvi o telefone tocar, a Marli me disse: ‘Neide, é o César’. Eu voltei e atendi, ele me disse: ‘eu arrumei um lugar, vou embora você vai comigo para o Mato Grosso, se eu for?’ (o pai dele morava no Mato Grosso e a mãe em São Paulo); Eu disse: eu sou sua mulher, se você for, eu vou. Ele me perguntou: ‘você fez o pré-natal?’ Estou fazendo, é menino (eu não tinha certeza). ‘É menino?’ Vai se chamar César. ‘Ah! Que bom! Mas não vamos esperar nascer, não! Eu vou resolver umas coisas aqui, vou pegar um dinheiro e a gente vai embora’, ele me disse. Pensei, tudo bem, eu fico esperando. Passando aquela noite, eu tive um sonho com meu marido. No outro dia cedo, o irmão dele, Carlos, que morava em Artur Nogueira, bateu palmas na porta da casa da minha mãe. Quando eu o vi falei: não precisa nem me falar (só podia ser notícias do César). O que aconteceu com o César? Ele me falou: ‘o César foi assassinado’. O que? ‘O César foi assassinado’. Pra mim foi um choque. “Eu vim lhe buscar para ir no velório e sepultamento do César’. Eu não vou. Eu não fui, eu nunca mais pisei em São Paulo”, revelou Neide.
Ela nunca mais foi a São Paulo, nem mesmo para buscar suas coisas. Ela morava vizinha a casa da sogra, Ana Maria. Uma casa espaçosa e confortável, a sogra lhes ajudava com suporte financeiro. César trabalhava com a mãe. A sogra adoeceu, perdeu os bens com a falência dos negócios após a perda do filho. “Eu nunca pedi nada pra ela. Não recebi pensão do César porque ele não tinha carteira assinada”. O reencontro aconteceu dezesseis anos depois, quando Ana Maria procurou pela família de Neide, então, avó e neto se conheceram.

 

César (a direita) com a família

O terceiro filho e a viuvez
Viúva, mãe de três filhos, sem pensão, desempregada, morando na casa dos pais. Ela contava com a ajuda famíliar. No dia 12 de outubro, de 1998, Neide sentiu as contrações, era uma época de chuvas torrenciais, a chuva não dava trégua. O bebê nasceria em Limeira, e Neide precisaria percorrer mais de quinze quilômetros para chegar ao hospital. “Estava acontecendo a Festa do Peão, de Limeira. Pra ir para o hospital, não tínhamos carro, era preciso pedir pra alguém me levar, só tinha um vizinho que tinha carro; o (falecido) Tião Preto. Agradeço ele de coração. Foi muito difícil passar por todas as lombadas e buracos na estrada até a chegada ao hospital. Eu estava na mesa de parto e o cantor Daniel, cantando (Festa do Peão). Não recordo da música porque, naquela hora não dá pra ouvir a música”, disse.
Nasceu o menino César. O parto foi normal, foi necessário um procedimento cirúrgico de vinte e cinco pontos. César nasceu prematuro, as roupas do enxoval ainda não tinham sido preparadas e o chá de bebê também não havia acontecido. Ele foi no próprio chá de bebê. Os pais de Neide ajudaram ainda mais, com o aumento da sua família. Ela foi trabalhar de empregada doméstica, também foi pra roça colher laranjas. Continuou trabalhando enquanto sua mãe cuidava das crianças. No mesmo ano, Neide conheceu o seu atual esposo, o Amauri, quando veio da região de Sorocaba para morar com a tia, ele era solteiro. “Nós dividimos a casa da minha mãe, morei lá até construirmos a casa que eu moro hoje. As crianças passaram a chamar o Amauri de pai. Eu engravidei dos filhos dele, o Leandro, a Liandra, e a Heloá”.
O filho César, era uma criança arteira e alegre, define a mãe. “Eu recebia reclamações da escola. Ele estudou na escolinha do bairro dos Frades, ele brigava, me chamavam, eu ia. Quando ele passou a estudar na escola Dorivaldo Damm, no Centro Rural do Pinhal, começou a melhorar o comportamento, mas, sempre muito sarrista. Ele chegava a deitar no chão pra dar risada. Sempre com os amigos Mariana, Tadeu e Gisele. Adorava desenhar, uma pessoa perfeccionista. Amava os seus cachorros”, contou.
“Eu tinha um viveiro de mudas, antes do meu irmão Nilson falecer. Quando a minha mãe descobriu que o meu irmão estava doente, ela decidiu dividir os seus bens para os filhos, em vida. O Amauri, meu marido, comprou todas as coisas pra gente montar as duas estufas, de flores e árvores nativas. O César, nos ajudava no viveiro, fazia o atendimento dos clientes, dava todas as orientações nos cuidados com as plantas. Quando ele fez a formatura, eu já havia vendido todas as mudas, porque o viveiro ficou num terreno que não era o meu. Ele fazia jardinagem muito bem, pintava vasos com tinta automotiva com muita criatividade. E também, ajudava o pai como servente de pedreiro. Porque estava difícil de conseguir o primeiro emprego”, recorda a mãe.

 

César e o cão Thor

 

Eu começava a orar um mês antes
Em 2017, César foi convidado para ir a uma Festa Rave, na cidade de Andradas, MG. Neide não aprovou, mas, ele foi e gostou muito, adorava música eletrônica. “Foi aí, que ele pegou amizade com outro tipo de gente. Ele sempre foi uma pessoa de sítio, não tinha maldade no coração, o mundo dele era por aqui, com gente como ele. Não fumava, não bebia. Ele gostava de ajudar as pessoas. Toda vez que me dizia que ia nessa festa, eu começava a orar um mês antes. Ele arrumou o primeiro emprego, estava trabalhando com carteira assinada, fazia horas extras e guardava o dinheiro para ir na festa Rave, em Andradas. Quando ele voltava, sempre me contava: ‘Mãe, teve uma menina que passou mal, lá na festa. Eu levei no ambulatório e fiquei com ela por uma hora, comprei água, o que comer, ajudei ela achar os amigos dela’. Ele sempre estava ajudando alguém na festa e todas às vezes, ele me contava. Eu sempre aconselhava: César, você tem o seu dinheiro, não pegue nada da mão de ninguém. Só que ele se dava com todo mundo, sem malícia e todos gostavam dele. Ele ia na festa por causa da música, das apresentações de música eletrônica”, disse.

Em outubro de 2018, César iria viajar para Minas Gerais, aconteceria a tão esperada festa Rave, de Andradas, a festa começava sábado e terminava no domingo. No sábado da festa, Neide foi às compras pela manhã para que no horário que o filho César saísse de casa, eles pudessem se despedir. “Eu cheguei das compras, ele estava no quarto, eu disse: César, logo, logo, o ônibus passa! Já era quase meio-dia. ‘É mesmo, vou me trocar’. Ele se trocou. Eu abençoei, abracei, falei pra ele que eu amo-o. Pra ele tomar cuidado. Dei todos os conselhos que uma mãe pode dar, para ele voltar do mesmo jeito que foi, pra mim. Tomei meu remédio (da depressão) porque estava na hora do meu descanso. Deitei, levantei, ele ainda estava lá, me pediu para costurar uma bolsa. Despedi de novo e, me disse: ‘vai se despedir de mim de novo, mãe?’ Sim, eu vou me despedir de você, de novo. Me abraçou e foi em direção a casa da minha irmã. Encontrou com ela, abraçou e disse: ‘na hora que eu chegar, a tia vai me buscar?’ ‘Liga que eu vou’ ouvi ela dizer”. Despediu-se da irmã mais velha, Ana Paula e, ‘roubou’ algumas balas de noiva pra levar na bagagem. E foi. Neide relata, “no domingo, eu tinha um almoço pra ir, na chácara vizinha. Eu não queria ir, porque eu estava mal por causa da minha depressão. A vizinha queria muito que eu fosse, porque cuidei dela por três meses quando passou por uma cirurgia. Eu fui, almocei e, ao voltar pra casa, ao passar pela cerca viva, tinha um buraco e apareceu uma borboleta azul linda, era uma hora da tarde”, detalhou.
Naquele domingo Neide não iria à igreja Congregação Cristã no Brasil, pelo motivo de não ter feito almoço, ficaria em casa para preparar a janta para o César levar de almoço, no dia seguinte. O marido insistiu que ela fosse na igreja, sim. “Eu estranhei ele implorando para ir na igreja”, disse. Ela foi, e do seu lado sentou uma irmã que chorava muito. Sem entender, Neide orou pela irmã durante o culto. A irmã chorava muito e não conseguiu dizer a Neide que o diácono queria falar com ela. Veio outra irmã para dar o aviso. “’Irmã, pega as suas coisas, o irmão cooperador quer falar com a irmã’. Eu saí e ainda brinquei, achei que fosse para ficar no lugar de algum porteiro que tinha faltado. Estavam o cooperador de jovens e o cooperador da noite e, me disse: ‘irmã, eu estou sentindo de fazer uma oração pra irmã, vamos na sua casa? A hora que cheguei em casa, tinha um monte de gente me esperando, eu não entendi nada. Quando cheguei, o cooperador me falou: ‘irmã, o seu filho César está muito ruim, no hospital’. Eu fiquei louca, eu não sei quem estava aqui em casa. Não me lembro o que eu fiz. Eu não me lembro quem foi no velório. Eu só me lembro, da minha face no rosto do meu filho e, chorando, corria as lágrimas minhas nos olhos dele e, parecia que era ele quem estava chorando”, descreveu.

O que houve no dia 16 de outubro com o César
Quando César precisou ser socorrido na festa Rave, ninguém tinha o telefone da família, para fazer o contato da emergência, procuraram pelo sobrenome. Uma sobrinha de Neide estava no shopping com uma amiga que conhecia alguém que estava na mesma festa Rave. Essa conhecida mandou uma mensagem. As amigas juntas no shopping, ficaram sabendo e uma disse a outra: “tomara que não seja o meu primo”. Quando mostraram-lhe a foto, a sobrinha de Neide quase caiu de costas. Não conseguiam o contato com a família, quando conseguiram deram a notícia de que ele estava no hospital em Andradas, muito mal. Neide conta que na hora que estava se arrumando para ir a igreja, sua filha Bárbara, trocou de roupas. A irmã de Neide passou correndo na casa e cochichou no ouvido da sobrinha. “Eu perguntei: onde vocês estão indo? ‘vamos levar a Ana Paula pra Limeira’”, relatou. Elas foram para Andradas, ao encontro de César, sem saber o caminho. Quando chegaram ao hospital da Santa Casa, a funerária já estava com o corpo dele no carro, para seguir para o Instituto Médico Legal da cidade de Poços de Caldas, MG, para fazer autópsia.
“César gostava muito de música eletrônica, queria muito assistir a apresentação do Dj. Ele sempre ficava na frente do palco, no front, para curtir o show e aparecer no filme da festa. Estava junto com uma menina e disse a ela: ‘amiga, me espera aqui que eu vou buscar uma garrafa d’água pra mim’. Ele foi e encontrou dois indivíduos. Já se conheciam e deram uma garrafa de água fechada pra ele beber. Ele conversou mais um pouco, e bebeu a água – ele tinha o hábito de beber água numa golada de meia garrafa. Saiu andando, bateu a mão no peito de uma moça e falou: “estou passando mal”. Caiu, e já caiu morto. O que deram pra ele beber foi tão forte que ele não conseguiu mais respirar, ele morreu na hora. Ele teve embolia pulmonar. Eu morri junto.
Eu fiquei louca por meses. Fiquei louca por muito tempo. Não caia a ficha do meu filho morto que eu via todos os dia, por vinte anos. E, tirar a vida dele, não é justo. No momento que o meu filho morreu, eu morri junto com ele. A minha vida acabou. Hoje, pra mim, tanto faz, chover ou fazer sol, a vida não tem mais sentido; como se eu morasse na terra do ninguém”, descreveu Neide.
O laudo médico demorou três meses para ficar pronto. “Tiraram um pedaço das vísceras dele e foi enviada para Belo Horizonte, MG. Justo na época, que estourou a barragem da Vale do Rio Doce, em Brumadinho, MG. Todos os legistas se mobilizaram para ajudar nos laudos das vítimas de Brumadinho. O laudo não saia mais, eu liguei lá no Instituto Médico Legal e implorei: eu preciso saber do que o meu filho morreu, pelo Amor de Deus! Porque até então, eu não tinha noção do que ele tinha morrido, eu achava que ele tinha enfartado. Me disseram pra ligar na semana seguinte, quando liguei o laudo estava em Andradas, MG. Tive que pegar o carro e ir até lá buscar. Ele morreu de embolia pulmonar. A água que ele tomou na festa tinha cetamina, cocaína, e metilenodioximetanfetamina – o ecstasy”, explicou.

 

Ana Paula, Bárbara, Liandra, a mãe Neide, Leandro e Heloá

 

Neide continua, “é uma dor inexplicável que dói dia e noite. Eu tomo quatro remédios por dia, dois para a ansiedade e dois para dormir, é uma tortura diária. É assim a minha vida. Não tem superação para a perda de um filho. Me dizem: ‘você tem mais cinco filhos’. Eu posso ter cinco filhos, quinze filhos, mas faltou um, faltou todos. O filho pode ser bandido, traficante, pode ser o que for, mas é o seu sangue. Você gerou ele, cuidou. Ele era um menino caseiro, não fumava, não bebia. Eu teria um outro filho, hoje, se não tivesse retirado o útero, anos atrás. Não para substituir ele mas, para preencher a minha vida. Os meus filhos já estão jovens, adultos, eles não precisam mais de mim pra cuidar deles, cuidar de uma criança amenizaria a minha dor”.

Quando os pais, sem esperar, repentinamente, enterram um filho, como não é o esperado pela ordem da lógica da vida, ocorrem uma comoção profunda. Uma grande dificuldade de compreender o que está acontecendo e, a pergunta: como será a vida daqui pra frente?
A morte como perda repentina, traz sentimentos fortes e é vivida por todos nós. Por isso a morte como perda repentina muitas vezes é mais temida do que a própria morte. Mesmo passado o tempo depois do ocorrido, o registro da perda na vida de quem perde uma pessoa querida é diferente. A temporalidade do inconsciente é diferente da versão cronológica, assim como a distância não tem importância para o pensamento. Se tratando do luto materno, este se diferencia dos demais lutos, a mãe, além de elaborar esse luto de forma diferenciada, tem seus sonhos substituídos pela saudade e pela dor, como uma forma de manter o filho vivo, dentro de si.

1 comentário sobre “A morte de um filho na vida de uma mãe”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *