Terezinha Faustino dos Reis Pereira

Os papéis se inverteram; as filhas passaram a cuidar da mãe

Vida Real – Mês das Mães

Terezinha Faustino dos Reis Pereira, viúva de Gonçalo Pereira, mãe de três filhas: Márcia, Marta e Maria das Dores, a Dôra. Mulher que se dedicou ao bem-estar da família, religiosa, serviu e cuidou do esposo até o seu falecimento em 2017. “A minha mãe era uma mulher super-ativa, fazia todo o serviço da casa, não parava o dia todo. Sua paixão pelas plantas preenchia todas as suas manhãs, com os cuidados. Hoje, quando olhamos uma plantinha murcha, corremos lá molhar para que ela não perceba. Eram muitos vasos, tomava todo o espaço do quintal e a área de entrada da casa. Eu chegava aqui, na casa dela, às dezoito horas, ela estava passando as roupas, lavadas pela manhã, ela falava que não gostava de deixar as roupas dobradas para passar no dia seguinte”, detalha a filha Márcia.

No dia 23 de dezembro 2019, foi no quintal que Terezinha não se sentiu bem. Ela estava no tanque lavando roupas, Dôra havia chegado da farmácia, a mãe lhe disse: “eu não estou me sentindo bem”. Dôra e a prima Rosa, a levaram até a farmácia para auferir a pressão arterial e percentual de glicose, pois a mãe é hipertensa, diabética e cardíaca (em 2011); estava tudo bem.  Em casa, reclamou que as pernas bambearam. A filha lhe acalmou e pediu para ela ficar sentada que iria continuar lavando as roupas, mesmo a mãe dizendo que não era necessário. “Eu falei: fica sentadinha. Dei-lhe um pedaço de pão e fui lavar as roupas. Depois de dez minutos eu ouvi um estalo, fui ver o que era, ela já tinha sofrido o AVC. Já estava totalmente diferente, com a boca torta, não conseguia falar, foi um desespero pra mim porque, eu tinha que tomar todas as providências de emergência sozinha. A Marta havia viajado com o marido e a filha Beatriz, para Canindé, no Ceará, visitar a sogra”, disse.

Terezinha foi socorrida por volta do meio-dia, ao chegar no hospital, estava acontecendo uma manifestação de revolta de uma família, referente a um atendimento médico. Márcia e Dora foram chamadas pra conversar sobre o estado clínico da mãe as dezessete horas e Terezinha deu entrada na UTI perto da meia-noite, para receber o tratamento adequado. “Quando ela saiu da UTI, dias depois, foi para o quarto, não falava, fazia uso da sonda”, conta Márcia. 

Recebeu alta, foi pra casa, as filhas tiveram suas vidas transformadas por dois motivos: não tinham mais a mãe ativa, preocupada com todos, cuidadora, que chamava pra si tudo o que acontecia. Agora, elas teriam que cuidar de tudo o que a mãe fazia, com primor e dar conta dos cuidados e, se responsabilizar pela sua recuperação, pois, todos desejavam (e desejam) ver a mãe ativa, se alimentando e num futuro próximo, quem sabe, em pé. Essa é a mãe desejada pelas filhas, estão em busca, porque as mulheres em muitos aspectos são mais fortes diante da dor, da adversidade e da morte; por isso a mulher cuida. Ao longo da história da nossa civilização nem mesmo a perseguição e a morte foram capazes de dobrar as mulheres. O desafio da inversão dos papéis estava só começando e, elas sabiam que não se curvariam diante dessas dificuldades.

Contrataram uma fonoaudióloga. Passados dois meses, a profissional tirou a sonda, um progresso. Terezinha manifestava vontade de mastigar, pois, manteve os movimentos mastigatórios. Mas, não era tão simples, os cuidados iam se multiplicando, sem a sonda, corria o perigo de engasgar, e ainda, para somar a todas as preocupações; a pandemia do novo coronavírus chegou no Brasil, e foi decretada a quarentena. As visitas que Terezinha gostava tanto foram cortadas. A enfermeira que atendia em situações emergenciais não pode vir mais, a fisioterapeuta, que conseguia colocar Terezinha em pé, foi impedida de continuar. A vigília que era permanente foi multiplicado pelo medo do contágio. 

O progresso clínico é real e visível para alguém que chegou em casa comprometida clinicamente, sem autonomia. As filhas, inquietas, não deixam de buscar alternativas para melhorar o conforto da mãe. A cama de hospital foi substituída pela adaptação da sua própria cama, o que facilita a transferência da cama para a cadeira, antes os genros Silvio e Roberto ajudavam. Com a nova adaptação ela consegue colaborar, com esforço físico, para se acomodar à cadeira, ter o prazer de tomar sol, andar pela casa e ir até o seu canto preferido, o quintal, com as plantas deixadas desde dezembro, a última vez que esteve lá, foi quando passou mal. A filha Dora relembra, “a primeira vez que ela voltou ao quintal, ficou muito angustiada. Eu achei que era por não ter visto todos os vasos de volta ali. Nós tivemos que selecionar os vasos repetidos, eram muitas plantas pra gente dar conta. Ela ficou olhando a sua volta, observou que suas coisinhas estavam mudadas. Ela sentiu muito. Eu fico pensando assim: o dia que a gente retornou com ela ao quintal, três meses depois, quando ela olhou a sua volta, acredito que “caiu a ficha”, porque foi ali que ela passou mal. Eu disse: tenha calma, porque agora você está bem”.

A casa de Terezinha e Gonçalo sempre esteve cheia, mesmo depois que as filhas Márcia e Marta se casaram. A mãe estava sempre lá, do lar, não teve oportunidade de ser alfabetizada, por isso as filhas sempre estiveram à sua disposição para levá-la ao médico, resolver burocracias com documentos. 

Quando o pai faleceu, as filhas ficaram muito mais presente. Maria das Dores mora com a mãe, Marta mora em outra casa no mesmo quarteirão e Márcia trabalha ao lado. “A mãe pra gente é tudo. Desde que ficamos sem o pai, tudo o que fazemos é voltado pra ela. A casa da mãe é um aconchego, um lugar que a gente tem vontade de ficar. Não está sendo uma obrigação de filho ter que cuidar dela”, aponta Márcia. 

“Sempre fomos unida porque cuidamos do pai também. Só que os cuidados com a mãe está sendo maior. O pai era muito independente, ele tentava se virar sozinho, mesmo fazendo quimioterapia, para tentar vencer um câncer de estômago. Ele gostava de andar a pé. Eu dizia: a hora que terminar a quimioterapia, o senhor me liga, que eu lhe busco. Tinha vez que ele me ligava quando estava no meio do caminho, de volta pra casa. Eu ficava brava com ele: ‘você não pode fazer esforço!’ Demos banho no pai e comida na boca nos últimos dias. A Márcia fez a barba. (Foi difícil?) Foi. Porque ele gostava muito de comer e, no hospital quando vinha a comida pra mim, eu virava de costas, engolia três colheradas (choro) e deixava o prato de lado pra ele não ver. O bom, foi quando ele veio pra casa, a gente cuidou dele com mais delicadeza, fazendo tudo mais devagar, no tempo dele. Aos setenta e um anos, ele se recuperou e nós pudemos comemorar o seu aniversário com os irmãos dele, foi uma festa! Aos setenta e dois, perdemos o pai. Cuidamos do pai mas, os cuidados com a mãe está sendo muito maior”, descreve Dora. 

Terezinha consegue se comunicar com a família, fica muito feliz com as brincadeiras das netas Gabriela e Beatriz. “Muitas vezes, ela se esquece do que vai dizer, logo se lembra, ri da situação, com muito senso de humor. A gente faz questão de manter o humor aqui em casa, senão a gente “pira”, fazemos brincadeiras para motivar quando ela está triste, damos um jeito de provocar gargalhadas. Eu peguei uma calça bem larga, (dela), vesti a calça com a minha perna e a perna dela de um lado e a perna da Marta do outro, para colocar ela em pé; foram muitas gargalhadas. Eu chego aqui, pergunto: mãe, posso subir no seu colo? Quero colo! Fazemos carinho, cafuné e ela interage com a gente”, conta a filha Márcia.

As netas Gabriela e Beatriz estão muito presentes na companhia da avó. Gabriela sentiu muito quando viu a avó chegar em casa com a sonda, tinha medo de se aproximar, depois passou. A Beatriz estava viajando, visitando os avós paternos, os pais anteciparam o retorno para o dia de Natal. Desde então, as primas formaram uma dupla que participa da recuperação da avó. Elas fazem brincadeiras, incluindo a participação da avó. Beatriz provocou as primeiras palavras; “eu falava: ‘eu te amo’ e às vezes ela repetia, às vezes não. Depois começamos falar: café, água, ela ia repetindo. Depois a gente foi falando palavras mais difíceis. Eu filmava tudo pra tia Márcia, pra tia Dôra. Eu ia começando pelo mais fácil e, depois fui falando as coisas mais difícil”, contou a neta Beatriz.

O envolvimento da família através dos cuidados, empenho, perseverança, acima de tudo, muito amor têm trazido Terezinha de volta. A família não abre mão de inserir a mãe (mesmo que comprometida fisicamente) na participação de tudo o acontece na casa. A família faz sentir-se importante. Terezinha não deixou de fazer as unhas, indica que suas unhas estão feias e consegue dizer que suas plantas não estão como ela deseja, graças a dedicação dos cuidados. Grandes avanços tem acontecido. Recentemente, seu sobrinho, Ezir fez aniversário. A filha Dôra propôs para a mãe fazer um vídeo para ela cumprimentar o sobrinho. Ela aceitou, cantaram parabéns e Terezinha disse: “ Ezir, eu te amo”. O sobrinho agradeceu emocionado. 

O dia a dia da família acontece em função dos cuidados de Terezinha. Não existe mais planejamento do amanhã, o que importa hoje, é a saúde e bem-estar da mãe. O afeto lhes dá a garantia de equilíbrio e harmonia e define a identidade social da família. “Porque agora, inverteu os valores, ao invés dela cuidar da gente; a gente está cuidando dela”, comentou Márcia. 

Aline, Gabriela, Dôra, Terezinha, Marta, Beatriz e Márcia
Aline, Gabriela, Dôra, Terezinha, Marta, Beatriz e Márcia

A importância dessa mãe para as filhas

“A mãe pra gente é tudo. Porque ficamos sem o pai e tudo o que a gente tem que fazer, já era tudo voltado pra ela. Cuidamos pra ela não sentir que estava sozinha, então, pra gente, a casa da mãe aqui é uma aconchego. Não queria que ela estivesse na cama. A gente gosta de ficar com ela. Não está sendo uma obrigação ter que cuidar dela, a gente faz por prazer, a gente gosta de ter esse trabalho com ela. Demonstramos ‘força’ pra ela sentir o quanto nós queremos ela com a gente. Dizemos: ‘força mãe! Levanta a cabeça! A gente quer ver a senhora de pé! Nós três abraçamos a causa de ver ela bem cuidada, dela voltar a andar, interagir, passear com a gente. Enquanto isso, cuidamos das unhas, arrumamos os cabelos, fazemos maquiagem. A gente quer ela aqui desse jeito, não penso numa hipótese diferente”, enfatizou Márcia.

“Falar da condição da minha mãe é difícil. Uma pessoa que fazia tudo e vê-la na cama é meio complicado pra mim. Mas, eu estou aqui, ela sempre falou que eu estive com ela pra tudo, na organização da casa, então, deixei a minha casa com a colaboração do meu marido Roberto e estou aqui, dando o meu tudo. Aqui eu tenho que ser mãe, filha, esposa. E, ainda tem a preocupação com a pandemia. Mas é um amor que graças a Deus, meu pai nos deixou através de uma lição: o amor é a união da família. É amor”, explicou Marta.

“Eu queria que as meninas tivessem voltado pra casa mas, eu não consigo cuidar da mãe sozinha. Eu agradeço por elas estarem aqui comigo, porque eu, morava com eles. Eu agradeço a Deus, logo a mãe estará de pé, daí a gente volta à vida normal. Eu e a Dôra estamos rezando um terço, no mês de maio, agradecendo a Deus pela vida da minha mãe, por Nossa Senhora e o menino Jesus que esteve com ela na UTI. Pedindo pelo fim da pandemia e blindar a gente pra não trazer o vírus pra ela”, assegurou Marta.

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