Como essa fase de quarentena e isolamento social está lhe afetando?

Laíza Maaz, Flávia Ichano Magri e Renata de Oliveira Jorge, são três jovens universitárias, elas relataram suas experiências a respeito da fase de quarentena e isolamento social como parte dos esforços que toda sociedade está fazendo para deter o novo coronavírus. Conversamos separadamente com cada uma, por ligação telefônica, o assunto: de que forma o isolamento social tem afetado a sua vida? Como estava a sua rotina antes da pandemia e como está a sua rotina agora? As três jovens vivem realidades diferentes, com estrutura familiar que permite atravessar a pandemia do novo coronavírus com distanciamento social. Elas fazem parte da geração que nasceu no ano 2000, uma geração que adotou a tecnologia nas relações e rotina diária. São muito ligadas à família e não trocam o contato presencial pelo virtual. Portanto, estão sofrendo com as aulas virtuais, esperando que essas privações passem logo. Ambas, acreditam na ciência e que o isolamento social é a melhor estratégia de prevenção do Covid-19. “Eu acredito que pode demorar um pouco, mas a resposta virá da ciência”, disse Renata Jorge.

 

Laíza Maaz

“Tento me confortar pra tudo isso passar logo”

Laíza Maaz, estudante do terceiro ano do curso de Pedagogia – noturno, da Unesp, em Rio Claro. A rotina da jovem antes do isolamento social era intensa. Moradora na área rural, acordava cedinho, às sete horas entrava no trabalho – uma escola particular, em Limeira – onde atende na função de inspetora de alunos “graças à faculdade de Pedagogia”, com fim de expediente as dezessete horas. “Eu ficava direto no centro da cidade para pegar o transporte de van escolar até a faculdade, em Rio Claro. A minha aula começava as dezenove horas até as vinte e três horas, quando eu voltava pra casa, por volta da meia noite. Dormia um pouquinho e já acordava de novo. Essa era a minha rotina (antes da pandemia). Com certeza muito feliz com essa rotina. Eu me sinto realizada porque, são coisas que eu queria. Então, é cansativo mas, eu me sentia muito feliz e eu ainda me sinto”, descreveu. 

A vida social: “antes da pandemia também era muito intensa, pois, nas duas horas de almoço do trabalho aproveitava o período pra ficar uma hora na academia pra fazer os exercícios físicos. Às quintas-feiras, eu saia do trabalho, eu faço poli dance, ia para o estúdio, fazia uma hora de aula e depois, ia pra faculdade. Aos sábados, eu estava fazendo um curso de libras pra complementar o currículo. Depois da aula eu vinha pra casa, ajudava a minha mãe no serviço de casa ou então, eu ia para a casa do meu namorado e ficava por lá. Aos domingos de manhã eu ia pra igreja e depois sempre tinha aquele almoço de família com café da tarde e, essa era a minha rotina social antes da pandemia”. 

A rotina de Laíza foi interrompida com o isolamento social. Como a pandemia pegou a todos de surpresa o trabalho foi interrompido por um mês. “Foram antecipadas as férias dos funcionários pra gente poder pensar como ia fazer. Eu só saía quando era necessário ir ao mercado, farmácia e já vinha pra casa. Eu voltei ao trabalho recentemente, alguns funcionários também e, outros tiveram seus contratos suspensos, infelizmente. Eu auxilio os trabalhos dos professores do fundamental 1 para as aulas on-line, separando atividades para os alunos pegarem na escola, eles (a escola,) estão precisando de mim, graças a Deus. Eu estou entrando no trabalho as sete horas e trinta minutos e saindo as dezesseis horas. Não estou fazendo atividades físicas. O máximo que faço é o exercício em casa”, disse.

A Universidade do Estado de São Paulo – Unesp suspendeu as aulas desde que foi decretado a quarentena. Laíza não está tendo aulas on-line. “A gente ficou em casa, sem aulas, não tínhamos notícias, não tinha posicionamento quando entrávamos em contato. Numa reunião com a coordenadora do curso de Pedagogia da Unesp, fomos informados que as atividades remotas serão iniciadas no final de julho. A informação era de que as atividades on-line não poderiam acontecer porque muitos alunos não tem condições de realizar as atividades em casa. Pra esses alunos conseguirem participar das aulas on-line, em julho, serão disponibilizados notebook e um chip de internet para cada um. Será dada a opção para quem quiser trancar a matrícula, sem ser prejudicado e estão prevendo que tudo vai voltar ao normal com aulas presenciais, só em 2022”, Laíza explicou.

Segundo ela, a universidade tem muitos alunos matriculados que dependem da estrutura que a instituição oferece como moradia, e tantos outros auxílios que as famílias não tem para oferecer, durante a permanência dos filhos na universidade. 

Até 2022, as atividades serão remotas mas, somente quarenta por cento da carga horária do semestre pode ser on-line, o restante tem que ser presencial. “Então, cabe a nós fazermos a carga horária on-line e o restante a gente joga pra frente (próximos anos). A nossa vontade de se formar em 2021 não existe mais”. 

Todas essas mudanças que provocou a suspensão das aulas presenciais na Unesp deixou Laíza muito triste pois, os seus planos era se formar em 2021, para de fato ingressar a sua carreira de professora em sala de aula. “Ao mesmo tempo, eu tento me confortar porque, a situação que nós estamos vivendo (com a pandemia do novo coronavírus) é preciso passar por isso pra gente poder sobreviver. É triste mas, eu tento me confortar pra tudo isso passar logo”, Laíza relatou. 

 

 

Renata de Oliveira Jorge

“Prezar mais pela companhia das outras pessoas”

A jovem Renata de Oliveira Jorge está cursando o segundo ano de Pedagogia, na Einstein Limeira. As aulas presenciais foram suspensas e substituídas pelas virtuais, sem previsão de mudança. Desde então, a leitura durante o longo trajeto de ônibus até a faculdade, o encontro com os amigos e a vontade de se sentar no banco e ficar olhando o céu, por hora, terá que esperar um pouco mais. 

Renata nos conta que a aula on-line é meio complicado e mais cansativo. “De uma forma ou outra, os professores vão falar, falar, e mesmo que a gente interaja e tal, acontece sempre a mesma coisa; é monótono. Até pra ter vontade de entrar na aula é um pouco mais difícil também. Falta aquele contato humano (tão importante) para a troca de ideias que a gente tem na aula presencial. Não tem o encontro, é mais frio”, falou. 

Renata faz estágio na faculdade cumprindo carga horária do meio-dia às dezoitos horas, com a suspensão das aulas presenciais, o estágio não está acontecendo. “Sou estagiária. Eu ficava direto na faculdade depois do estágio para assistir as aulas no período noturno e comigo tinha algumas colegas de trabalho, uma é da minha sala, nós somos amigas. A gente comia e ia pra sala de aula juntas e, esse contato de ir junto pra aula está fazendo muita falta”. Neste período de isolamento as amigas conversam através do telefone para trocar ideias de trabalho sobre as aulas.

A estudante está levando a sério o nível de isolamento, está completamente isolada. “Os meus pais saem para trabalhar. Esses dias, teve uma mudança no bairro, eles me contaram e eu nem me lembrava direito da rotina do bairro, parecia algo tão distante. A minha avó e a minha prima moram aqui perto de casa e o nosso contato está muito menor, só por WhatsApp; basicamente não estamos nos vendo”, afirmou. 

Perguntamos se está vivendo o isolamento social como uma “sala de espera”, planejando tudo, para quando o pico de contágio do novo coronavírus passar. Ou se está tentando viver da melhor forma possível mesmo que em isolamento social? “Eu estou (vivendo) mais para o agora. No começo, eu estava assim: já, já, tudo passa. Vou marcar tal coisa pra eu fazer daqui três semanas. Mas, eu percebi que ia demorar mais que isso. A minha saúde mental estava falando: olha, dá uma pausa ai! Porque você não sabe o dia de amanhã. Eu passei a fazer mais coisas que me dão mais prazer, ler mais, fazer mais coisas que tem a ver com a minha vida agora, do que pra um futuro ou marcar alguma coisa distante para talvez vir a me decepcionar, porque eu ainda estou de quarentena”, descreveu. 

Renata não imagina um “novo normal” mesmo acreditando que não vai ser um normal de antes. “Pode não ser um normal como eu imagino. Por exemplo: eu acho que as pessoas terão um pouco mais de cuidado, e elas vão prezar mais pela companhia das outras pessoas. Mesmo aquela pessoa que mais gosta de ficar em casa, acha que não precisa de um contato; ela precisa de um contato. A gente chegou nessa conclusão de que a gente precisa do outro para conviver e ter uma saúde mental melhor”, observou Renata. 

Nas indagações de Renata sobre que pode acontecer no futuro, ela se preocupa como será o contato em sala de aula com os alunos. “Será que os pais vão prezar mais os professores ou a gente vai prezar mais o contato com os pais, o que vai mudar? É uma coisa que ninguém estava esperando mas, se a gente parar para pensar tem alguns pontos que precisam ser mais valorizados e, através disso a gente pode ter entendido (tudo isso) de uma outra forma”, concluiu. 

 

 

Flávia Ichano Magri

“Quando voltar vai ser uma alegria pra todo mundo”

A estudante Flávia está cursando Biologia, na Uniararas, na cidade de Araras, SP.  Em nossa conversa comenta que não estava fazendo muitas coisas antes da pandemia além das atividades que exigem o seu curso. “Esse ano eu tinha começado ir atrás de fazer o estágio de licenciatura na escola. Eu estava com todos os documentos encaminhados só que quando eu ia pegar a papelada pra levar na faculdade pra assinar, tive que parar com tudo e fiquei em casa (isolamento social)”, ela conta. Revela que nunca foi uma pessoa de ficar saindo muito, procura sair quando precisa resolver coisas ou se distrair com as amigas. “É muito difícil eu sair pra dar uma volta no centro, só pra sair e andar, para dar uma aerada na cabeça”, descreve.

Flávia, viaja todos os dias para a cidade de Araras, com o transporte de van, o grupo com quem viaja trouxe vínculos ao longo do curso, que fazem falta nesse período com as aulas presenciais suspensas. Ela nos conta,”eu tinha bastante contato com as meninas da minha van e a gente saia sempre pra fazer alguma coisa fora do ambiente da faculdade, não nos vimos mais. Eu sinto falta de ver os meus amigos então, às vezes, bate aquela tristeza, porque eu queria chamar as minhas amigas pra vir aqui, só que aí, eu não queria colocar todo mundo em risco”. 

A família de Flávia também tem respeitado o isolamento social, restringindo as visitas e a circulação pela cidade. “Faz falta ver os meus tios, o meu primo Mateus (de um aninho), a gente se via muito pouco, por ele morar do outro lado da cidade e, agora a gente não está vendo. A minha mãe, também fica triste por não estar acompanhando o crescimento do sobrinho dela. A única pessoa que o meu avô está vendo é a minha mãe quando ela leva as compras pra ele”, revelou. 

As aulas virtuais não convenceram a jovem de que a tecnologia pode substituir o contato presencial da sala de aula. “Eu tinha aulas de laboratório mas, esse semestre não tanto. Embora tinham matérias que dependiam um pouco da parte prática, como manuseio de equipamentos pra saber como funciona, neste caso, foi sugerido alguns sites com simulações desses equipamentos em forma de joguinhos. Algumas coisas (explicações) dá pra entender, outras ficam meio perdidas, fica aquela lacuna. Supostamente a gente vai repor essas aulas uma vez que a gente voltar e organizar partes que ficaram faltando”. 

Flávia, não arrisca dizer o que imagina como “novo normal”, acha que vai mudar muitas coisa, principalmente, o jeito que as pessoas veem as coisas. “Espero que seja logo. Quando voltar vai ser uma alegria pra todo mundo, porque não teremos que ficar o tempo inteiro trancados dentro de casa. Talvez as pessoas estejam mais próximas”, anima-se a estudante.   

O isolamento social acaba afetando o dia a dia e Flávia dependendo do dia, acorda e se põe a buscar “saídas” para os sentimentos provocados pelo isolamento.”Eu fico naquela: poxa! Eu queria sair hoje, porque eu não aguento mais ficar dentro da minha casa! Eu preciso ver alguém ou fazer algo diferente. Eu dou uma lida num livro, eu adianto os trabalhos da escola que tem pra fazer ou vou desenhar ou só fico sentada fazendo nada”, comentou. 

As três jovens se preocupam com o outro, da forma como estão sendo afetados pelas consequências da crise econômica, “eu penso na galera que tem os comércios e, às vezes, pode acabar falindo por causa disso. Penso na galera que está perdendo pessoas da família, da galera que perde o emprego; fico pensando em como essas pessoas estão lidando com isso. Bate uma tristeza porque, eu não sei o que fazer e eu não tenho muito como ajudar. Mas se eu pudesse ajudar, eu ajudaria”, conta Flávia. 

Para Laíza que já voltou ao trabalho, as notícias sobre os cortes no quando de funcionários da empresa tem deixado a jovem muito triste e preocupada com o possível aumento do desemprego. “As notícias que chegam não são animadoras mas, eu tento pensar sempre no presente. O futuro a Deus pertence”, conclui.

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