Vai passando os anos e a planta não consegue se desenvolver em altura, mas consegue desenvolver o tronco e, a copa fica compactada dando a impressão de que é uma árvore frondosa mas, não passa de alguns centímetros

A idade artística de um bonsai

Para os chineses, o que vinha das montanhas era sagrado, então, eles traziam materiais de lá para o interior de suas construções. Pela observação viram a possibilidade de cultivar plantas em vaso, depois disso foi possível cultivar as árvores, com uma série de técnicas desenvolvidas para atingir um resultado na planta imitando a ação da natureza. Um exemplo seria a poda de raízes e a amarração para moldar cada planta. Esclarecendo mais essas técnicas, conversamos com Alessandro de Souza, apaixonado por animais e plantas, cultiva a arte do bonsai desde 1995.
“Tenho essa pitangueira, com uma idade avançada, embora o pessoal confunda, achando que a planta velha é o valor do bonsai – na verdade não é assim que se dá o valor. O que conta para o bonsai é a idade artística. Essa pitangueira, embora ela seja uma árvore de vinte e poucos anos de idade real, ela vai aparentar na natureza (na forma como ela foi trabalhada artisticamente) uma árvore muito mais velha – em torno de quarenta anos, o que demora uma pitangueira natural chegar a esse formato” abordou Alessandro.

Alessandro relata "a arte bonsai era a coleta da planta quase pronta. Com o passar do tempo os japoneses foram criando técnicas para imitar o que acontecia na natureza".
Alessandro relata “a arte bonsai era a coleta da planta quase pronta. Com o passar do tempo os japoneses foram criando técnicas para imitar o que acontecia na natureza”.

Alessandro ensina alguns detalhes, “durante a poda, imaginamos uma linha imaginária da estrutura das copas, porque as árvores quando antigas tem uma estrutura bem definida, pode ser ovalada, redonda, ou até triangular. Quero que essa seja um pouco triangulada. A gente deixa os galhos crescerem para pra dar conicidade nos troncos. O resultado no bonsai é passo a passo, não se consegue de uma só vez.

O significado da palavra bonsai quer dizer árvore na bandeja, “bon é bandeja / sai: é cultivo ou crescer. Seria como ter uma árvore plantada na bandeja mas, não traz o ideograma árvore na palavra, então, seria só cultivo na bandeja. Mas o Bonsai é muito mais que isso porque, virou uma grande arte e é uma atividade muito terapêutica para todas as idades. É uma árvore miniaturizada através de técnicas de poda da copa, raiz e aramação dando movimento e harmonia. O bonsai surgiu na China há mais de dois mil anos e mais tarde popularizou-se no Japão, onde sua técnica foi aperfeiçoada, chegando ao Brasil através da imigração. No início da prática as plantas eram resgatadas na natureza, os bonsais naturais, resgatados nas montanhas com solos rochosos resultado de uma natureza com muito vento; às vezes neve, fazendo com que a planta fique confinada e sem desenvolver plenamente. Vai passando os anos e a planta não consegue se desenvolver em altura, mas consegue desenvolver o tronco e, a copa fica compactada dando a impressão de que é uma árvore frondosa mas, não passa de alguns centímetros (algumas chegam a metros).

Alessandro relata que no início, “a arte bonsai era a coleta da planta quase pronta. Com o passar do tempo os japoneses foram criando técnicas para imitar o que acontecia na natureza, como os fatores limitantes que vai mantendo a árvore pequena. Por exemplo, a poda, imitavam animais comendo os brotos, o vento quebrando os galhos e com a técnica de aramação essa arte permite a gente moldar o formato da planta imitando a ação da neve, da gravidade”, disse.

Os estágios
“Quando você quer começar a arte a partir de uma planta jovem para se tornar um bonsai tem todas aquelas características de árvore antiga, começamos com uma muda jovem até para facilitar o trabalho de aramação – a técnica de moldar e entortar os galhos. A espécie chamaecyparis psifera é um ciprest japonês (nativo do Japão), excelente para iniciar a técnica quando a muda é jovem. Deixamos desenvolver bem as raizes trabalhando em vasos mais profundos ou até mesmo no chão e deixa ela crescer livremente para engrossar o tronco e formar bastante ramos. Esse primeiro estágio pode ser classificado como pré-bonsai ou muda em formação”, orientou Alessandro.
“Iniciamos as primeiras torções quando a planta já apresenta raiz desenvolvida – no termo japonês: nebari, que é a raiz bem distribuída e aparente. O tronco deve apresentar uma certa espessura avançada para fazemos as torções e as podas com mais frequência e em volume maior – uma vez ao ano de forma bem drástica. Nesse estágio, a planta está bem próxima do bonsai, pois, ela já começa ganhar forma de árvore – aparência de árvore antiga provocada pela técnica que cria essa possibilidade, essa característica de idade avançada. Como se a gente usasse o que acontece na natureza só que acelerasse esses processos. Ao invés da planta demorar cem anos (o que levaria na natureza para alcançar um bonsai natural), com a técnica, conseguimos reduzir esse período para cinco anos, sete anos – depende da habilidade do artista, da qualidade da planta e tudo mais”, destacou.
“Em tese, é esse o processo. Quando a planta está num formato bem legal (o parâmetro é o de uma planta na natureza) e você não quer que ela desenvolva mais e quer que ela diminua o crescimento, porque o bonsai é considerado uma arte inacabada. Como se trata de natureza, de planta, ela está sempre se desenvolvendo, consequentemente todo ano deverá realizar a poda.
A planta na bandeja terá um desenvolvimento bem controlado, não vai perder a forma e a gente sempre estará melhorando. A cada ano é realizado um trabalho, uma torção, uma poda de alguma copa – procuro distribuir bem as copas porque na natureza acontece isso – a árvore nova cresce na vertical e conforme ela vai ganhando idade os galhos vão baixando com uma tendência mais horizontal (principalmente a copa) – nas regiões tropicais onde não tem neve ou outros fatores que cedam os galhos”, descreveu.

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