Marli Marlei Michielli, Ana Nellei de Michielli Meyer, Nicole Kelly Meyer, Nicolas Antônio Meyer

Quando uma Mulher empodera outra Mulher ela está dando asas a si mesma

Conversei com Marli Marlei Michielli e sua filha Ana Nellei de Michielli Meyer, no Senac, em Limeira, após evento que marcou o encerramento da “Semana Internacional de Consciência sobre a Síndrome de Down”, promovido pela Associação Amigos Especiais de Limeira – AEL. O assunto com a Marli e Ana Nellei é o empoderamento da Mulher através de outra Mulher.
“Fui mãe com 27 anos, Ana Nelley, a minha primeira filha, uma experiência diferente. Há trinta anos atrás o que tinha de diferente é que antigamente as pessoas escondiam os seus filhos com síndrome de Down, com vergonha dos seus próprios filhos, diferente de mim (muito pelo contrário) eu a produzia, eu a vestia com os laços e fitas e enfrentava, porque não tenho que dar satisfação pra ninguém. Eu assumi e fomos em frente”, afirmou Marli.

Durante a conversa, a filha Ana Nellei relata seu sonho, “no meu sonho eu queria ser cantora e fazer cinema da minha banda”. A mãe revela, “a Ana faz tudo praticamente”. “Eu faço teatro, futebol, dança de salão, bicicleta, ginástica rítmica e a natação também”, emendou Ana. “Natação é o seu carro chefe, ela faz natação desde os nove meses – só não começou antes porque tinha que tomar todas as vacinas. A Ana Nellei foi competir na Itália em 2006, na Essetre Olímpic Roma, pela Associação de Reabilitação Infantil Limeirense – Aril. Na época a competição estava acontecendo na Europa (através da entidade americana: Special Olympics que realiza os Jogos Mundiais de dois em dois anos), criada pela família Kennedy – porque eles tinham uma pessoa deficiente na família (Rosemary Kennedy, 1918-2005). Como eles tinham uma casa grande com um jardim maior ainda, eles abriram o próprio jardim da casa para que as competições fossem realizadas. Eles perceberam que essa atividade coletiva trazia prazer e alegrias para os participantes, foi crescendo para o mundo inteiro”, detalha Marli.

Marli Marlei Michielli, Ana Nellei de Michielli Meyer, Nicole Kelly Meyer, Nicolas Antônio Meyer
Marli Marlei Michielli, Ana Nellei de Michielli Meyer, Nicole Kelly Meyer, Nicolas Antônio Meyer

Lei Brasileira de Inclusão
A história da Ana Nellei, acontece num período onde ela e sua família puderam acompanhar as mudanças da legislação brasileira provocadas pela Lei Brasileira de Inclusão, que só foi aprovada em 2016 – foi sancionado para garantia de uma série de direitos relacionados a acessibilidade, educação, saúde, além de punições para o desrespeito.
O comportamento de Marli à frente dos cuidados e da educação da filha, marca uma geração que cuidou dos filhos sem o aparato da legislação, e o conhecimento da sociedade quanto ao que era a inclusão, há trinta anos atrás. As famílias que lidaram com a inclusão, nesta época, merecem o reconhecimento da sociedade, porque as mesmas se entregaram num processo de busca de conhecimento, informações, dificuldades, opressão, e acima de tudo, com muito amor; para ensinar a sociedade a importância de conviver com o diferente (somos todos diferentes, aceitemos ou não), desde aquela época a inclusão já era (é até hoje) realizada pelas famílias.

“Nesse evento de hoje, aqui no Senac, quero destacar sobre a inclusão, as famílias escondiam e não procuravam nada (atendimento), tinham vergonha dos seus próprios filhos, não matriculavam em escola pois, tinham medo que os outros judiassem. Então era assim: ‘Ah! Tem um probleminha. É Down mesmo’. Ninguém (pais) corria atrás (de atendimento especializado). Eu, pelo contrário, fui à luta, muita luta. A Ana Nellei, com dois meses, já fez fisioterapia, inclusive foi a fisioterapeuta que passou as primeiras informações. Então, ela me orientou ali, no meu primeiro passo e, dali pra frente a Ana Nellei foi cuidada da forma mais natural possível. Não tinha internet, pra você descobrir todas as respostas que você quer saber hoje. Tínhamos que ler livros, era um busca atrás de livros”, frisou.

Marli fez a opção de fazer todo o acompanhamento de saúde e educação da Ana Nellei no particular, “a Ana não foi pra entidade. Vejo que o problema da entidade é o seguinte; tínhamos receio, medo, preconceito, era complicado, eu fiz todo o atendimento em escola particular até um período. Só que nesse particular a gente profissionais muito bons e outros nem tanto, chegou um momento que ela por si só deu um basta. Não queria mais ir, deu esse bloqueio e parou todas as atividades”. Ana Nellei é quem conta, “agora eu continuei e, agora estou fazendo pedagoga na AEL e estou começando ler e escrever também. A Nicole está ajudando eu ler um pouquinho mais”.

Ao ser perguntada o que é inclusão na vida real? Marli respondeu, “inclusão também faz parte do respeito. É respeitar o ser humano como ele é, independente se ele tem uma deficiência ou não. Quando o outro não respeita a minha postura, é ignorar. Eu acho que é uma pessoa que merece a minha pena, porque se ela não sabe respeitar o outro, não saberá respeitar ela mesma e não tem a capacidade de reconhecer nela, o que ela tem de melhor”, avaliou Marli.

O reconhecimento de Marli, quanto ao fato da inclusão ser um processo realizado pela aceitação das famílias, é um dado relevante e imprescindível para maiores conquistas para a sociedade. “A evolução que a gente tem hoje, não é só do que veio de proteção através da Lei e estudos correlacionados. Eu quero dizer que a inclusão começou lá atrás, a evolução (da acessibilidade) veio da própria família, a aceitação começa na própria família. É preciso se empoderar para sentir que você tem ali, é o seu filho e, lutar pelo seu bem maior, que é teu filho. A gente corre e faz tudo o que faz por que traz felicidade pra ela – qual é a maior alegria dos pais? Ver os filhos felizes. Ela não tem condições de correr sozinha a gente corre junto e por ela. Antigamente não, esse filho que tinha o “probleminha” ficava isolado junto com a família, naquele cantinho, sempre do mesmo jeito, sempre da mesma forma, nem qualidade de vida tinha. Hoje, aumentou muito o tempo de vida deles. Antes eles morriam mais cedo, envelheciam muito mais cedo – agora não, eles têm a chance de chegar muito mais longe. A nossa medicina avançou, os cuidados, o conforto, as atividades, o acesso; então, vamos aproveitar tudo isso, procurar as informações para a cada conquista chegar mais longe. Quanto mais longe eu conseguir chegar com a Ana Nellei, pra mim melhor”, disse.

Mês de comemoração do dia da Mulher
O que chama a atenção na relação entre a Marli e sua filha Ana Nellei, além do amor é o empoderamento. O ano de 2019, marca um ciclo na vida das mulheres, o qual elas não serão mais reconhecidas como uma mulher de trinta anos atrás. Esse ciclo encerra um período de romantismo da sociedade vitoriana, onde a mulher esperava receber rosas vermelhas e, que o outro reconhecesse os seus desejos de realizações, seus anseios, suas capacidades.

O ato de empoderar é uma atitude social que consiste na conscientização dos variados grupos sociais, principalmente as minorias, sobre a importância do seu posicionamento e visibilidade como meio para lutar por seus direitos. Entre alguns dos principais sinônimos de empoderar estão: dar poder, conceder poder, dar autoridade, investir autoridade, dar autonomia, habilitar, desenvolver capacidades, promover, promover influência, afirmação, entre outros.

De acordo com Marli, “empoderar a Ana é respeitá-la em primeiro plano. Não é todo momento que eu a vejo como uma pessoa que tenha uma deficiência. Não é. Eu esqueço (a deficiência). Então, isso dá empoderamento a ela, eu aceito as necessidades e as vontades dela e tento juntar tudo com a família. Eu faço as coisas que ela gosta, por exemplo”, citou.
Ana fala sobre suas vontades. “eu adoro dançar, ir ao cinema, ouvir músicas novas, show do Roupa Nova, minha mãe sempre está comigo. Ela é minha amiga, me dá amor, ela é mais que uma mãe. Ela gosta de fazer as mesmas coisas que eu faço”, disse.
“Quando a gente vai participar você vai ficar sentada? Eu prefiro participar junto com ela. Há momentos em que ela tem o tempo dela, de estar com os amigos, passar o final de semana na casa da amiga Helen”, descreve a mãe. “Eu amo a Helen”, diz Ana Nellei.
Com a tecnologia, as duas amigas tem WhatsApp e conversam, também passeiam com o grupo da AEL. “Ela tem autonomia e geralmente as coisas acontecem naturalmente. Por que nós estamos todo tempo tão ligadas que uma topa o convite da outra na hora. E se o convite é só pra ela, vai tranquila, nunca recusamos um convite”, completou Marli.

Para concluir a conversa Marli ressalta: “A Ana me ensinou. Como se eu tivesse aprendido com ela, me ensinou que eu posso, eu consigo. E também outra coisa, a frase dela: o importante é participar”, emenda Ana, “e continua pra frente”.
Provocando: então, a Ana te empodera!? “Parabéns você conseguiu!”, disse a Ana para a mãe.

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