“Eu quero Vida! Aqui e agora!”

Outubro Rosa

“Sonhe com o que você quiser. Vá para onde você queira ir.
Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida
e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades
para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E
esperança suficiente para fazê-la feliz”.
Clarice Lispector

O depoimento de Raquel Brunheroto Redondano, sobre a experiência de passar por um câncer há 17 anos atrás

Conheci a Raquel em 1988, na Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep), na sala de aula do curso de Psicologia. Raquel desistiu do curso e eu tranquei o curso em 1989 mas, voltei um ano depois para conclui-lo. Perdemos o contato nos anos 90. Portanto, não participei da sua vida quando teve câncer, tampouco soube tal fato. Agora, com as redes sociais, foi a ferramenta que nos aproximou novamente. Diante do Outubro Rosa, Raquel – esposa do Laerte e mãe da Isabela, do Leonardo e da Luísa – passou a dar o seu depoimento de vida. Acredito que, como forma de participar um pouquinho do que lhe aconteceu há 17 anos. Trago aqui, em primeira pessoa, o depoimento dela sobre a Vida.

33 anos marcado pelo câncer
“O ‘engraçado’ dessa história é que, da família de minha mãe, alguns morreram de câncer mas, eu acho que naquela época, do sítio, não tinham um diagnóstico perfeito. Mas câncer de mama nunca aconteceu. Da família do meu pai, fui a primeira a ter câncer de mama, com 33 anos. E foram aparecendo muitos mais casos. Eu que dei o ponta pé inicial nessa história. Minha filha Luísa tinha um ano. E foi assim, ele (câncer) começou dar sinais, que até então, eu não entendia o que estava acontecendo. Fui num casamento em março de 2001, em Tiradentes-MG, e na época, o meu cabelo não estava normal – sempre fui muito cabeluda – eu tinha feito um regime em 2000, emagreci bastante e meu cabelo ficou muito horrível, parecia uma palhinha. Fui pro casamento descontente com o cabelo. Em agosto do mesmo ano, eu estava dando aula na escola Waldemar Lucato, um dia no meio do expediente, conversando com a professora Nilza Morais, mexendo no sutiã, eu falei: Nossa Gente! Eu estou sentindo um caroço aqui (era uma bolinha palpável). Ela me disse: ‘Imagina Raquel! Procure um ginecologista’”.

A primeira consulta
“Minha filha Luísa nasceu em 2000, com o Dr. Marcio Queiróz Fortuce, que tinha ido embora de Limeira. Ao ligar na Santa Casa, me informaram que ele havia voltado – foi tudo por Deus! Marquei uma consulta para a semana seguinte. Fui lá, ele olhou disse ‘na lata’; ‘Raquel, eu acho que é um câncer de mama’. Eu fui sozinha na consulta e sai, de lá, pensando, meu Deus do céu! O que vai ser da minha vida? Você já perde o chão de vez. Porque todo mundo associa câncer à morte. Tanto que não se fala câncer, porque câncer é aquela doença ruim. Na época que eu estava tratando tinha um senhor que fazia radioterapia comigo e a gente ficava na sala com os acompanhantes (o Laerte foi em todas as radioterapias, só uma que ele não foi me levar) e a radioterapia é muito rápida – você fica mais tempo na sala de espera do que para fazer o procedimento. O senhor (na sala de espera) falou para o Laerte: ‘você viu só ! Aquela mulher ali tem câncer’. O Laerte falou: ‘É!’ O senhor repetiu: ‘É! Ela tem câncer! (super assustado)’. O Laerte perguntou: ‘O que é que o senhor veio fazer aqui?’ O senhor respondeu: ‘Eu vim aqui fazer um raio X’. Na verdade, ele estava tratando um câncer com radioterapia, e a filha dele me disse que ele não sabia e não precisava saber”.

Os encaminhamentos
“O Dr. Fortuce me disse: ‘amanhã, você vai fazer mamografia e ultrassonografia, com urgência’. Foi tudo muito rápido, a toque de caixa. No retorno ele falou: ‘Raquel, você tem uma micro calcificação (um nódulo calcificado). Eu acho que tem a aparência de um câncer. A gente só não sabe se é benigno ou maligno. Você vai no mastologista. O (Dr.) Marcio Corrente vai lhe atender à tarde’.
Fomos na consulta (o Laerte foi comigo) e eu nem sou xereta e perguntei para a secretaria quantas pessoas tinham na minha frente. Ela me respondeu: ‘três pessoas’. Ele chegou. A secretaria entregou as fichas pra ele. Ele olhou, olhou e chamou: ‘Raquel Redondano! Quem é Raquel Redondano?’ Eu falei para o Laerte: Estou morrendo. Porque tinham três pessoas na minha frente e ele procurou a minha ficha. Ele queria eu. O Laerte disse: ‘pelo amor de Deus! Raquel! Isso foi um carinho que o Fortuce teve com você ! Onde já se viu você falar isso?’ Eu repetia: Eu to morrendo, Laerte. Eu to morrendo.
Entramos na sala. O médico disse: ‘o Marcio ligou pra mim, vamos fazer uma pulsão. Vamos tirar o líquido e mandar para uma biópsia’. Eu perguntei: Nós vamos fazer isso quando? Ele diz:’Agora’. Eu: Como? Ele: ‘Agora!’ Fez o procedimento muito rápido. Eu perguntei: Como funciona o câncer de mama? Ele: ‘olha, câncer de mama não é aquela história que a gente via na escola na “campanha do Siri”. Onde o caranguejo ia se espalhando e a metástase vai correndo pelo corpo. O câncer de mama é como se fosse uma colmeia. Da micro calcificação ele não precisa se arrastar. Ele vai dar um pontinho lá (pula), ataca o seu linfonodo, lá num outro órgão, num outro lugar. Como se fossem as abelhas voando em volta da casinha’ – disse, fazendo o desenho com um monte de abelhas em volta. ‘Mais pra frente nós vamos ver até onde ele avançou ou deixou de avançar e se é maligno ou não’, completou. O primeiro encaminhamento foi assim”.

Resultado
“Quando veio o resultado Dr. Marcio Corrente disse: ‘olha Raquel, nós vamos ter que retirar um pedacinho pra fazer uma biópsia da micro calcificação’. Isso tudo foi no mês de setembro. Fez a cirurgia, colocou um dreno e foi pra biópsia. O resultado acusou a neoplasia e ia ter que tirar – sem acusar se era maligno ou não. O médico disse: ‘nós vamos entrar no centro cirúrgico para fazer a retirada mas, eu não sei o que vou fazer. Se eu vou tirar um pedaço. Se eu vou ter que tirar inteiro’. Eu disse: O negócio é o seguinte, você tira tudo. Se precisar tirar o seio inteiro, você tira tudo. Porque eu não quero isso em mim. E eu não quero morrer disso. Ele me respondeu: ‘só na hora, no centro cirúrgico, que eu vou ver o que vou fazer’. Eu concordei”.

A cirurgia
“Passado uma semana fui para o centro cirúrgico. Não precisou fazer a retirada de toda a mama. Ele fez um quadrante e tirou oito linfonodos do meu braço direito. Quando eu acordei da cirurgia eu estava com um dreno com duas borrachas – e permaneceu por quinze dias. Foi um incômodo porque eu não conseguia mexer o braço (30 cm de dreno) e eu sou destra. O dreno parecia um cachorrinho porque você tem que ficar apertando para puxar o que tem de sujo no seu organismo, como uma sanfona.
Por conta disso eu fui readaptada para a biblioteca da escola em 2004, porque eu não posso escrever na lousa. Porque se eu ficar no movimento eu não aguento. É como se fosse morto o meu braço. Não posso tirar a pressão, não posso tomar injeção, não posso fazer nada nesse braço. É como se fosse um bracinho “morto”. Graças a Deus eu movimento ele, dirijo.
Eu falo que ele veio até pra me trazer um benefício, por conta da escola. De 2004 até hoje eu não sei se teria aguentado a sala de aula do jeito que estão os alunos, hoje em dia.
Muito se fala que tem gente com câncer de mama que não cai o cabelo, não mexeu no braço, não fez retirada de linfonodos (linfas). Cada um tem um tipo de tratamento contra o câncer. Recentemente, a nossa amiga fez o tratamento, em Barretos, ela não perdeu os cabelos. Ela não passou mal do jeito que eu passei. Ela toma um outro remédio (anastrazol), o meu foi tamoxifeno, por cinco anos. Ela fez duas semanas de radioterapia. Eu fiz vinte e oito sessões de radioterapia e oito sessões de quimioterapia. Cada caso é um caso”.
Os meus filhos não ficaram comigo durante o tratamento. A Luísa estava com um ano de idade. Em todo o processo de cirurgia eles ficaram todos espalhados. Minha mãe pegou a Luísa. A madrinha do Léo ficou com ele e a Kelly, minha irmã, ficava com a Isabela, eu passava para vê-los e na cirurgia eles vinham pra cá”.

O tratamento
“Veio o resultado da biópsia, neoplasia maligna. Comecei o tratamento no Centro de Oncologia de Limeira – COL, com a Dra Ivana, uma pessoa maravilhosa. Você passa por um médico de medicina nuclear – ele faz marcações de pontos com caneta no seu corpo para fazer as sessões de radioterapia. Porque se tomar a radioterapia no lugar do caroço, vai matar o câncer e vai afetar os órgãos – resolve o problema e causa outro problema. Por ser um aparelho imenso ele pega o local do câncer na transversal. Já a quimioterapia é um soro que você toma sentada por duas horas e meia, no meu caso. Há quem fique o dia todo.
Eu sou super corajosa até ver uma agulha. As veias desaparecem. Na primeira quimioterapia, eu saí vomitando do hospital. Eu tenho facilidade para vomitar na gravidez, mas as quimioterapias, passei quase cinco meses vomitando. Ao todo, acho que passei um ano da minha vida vomitando. Eu virei um ‘trapo de gente’. Quando fui pra cirurgia, já havia cortado o cabelo curtinho e daí fiz a quimioterapia”.

As sessões de quimioterapia
“Depois de dezoito dias, do ciclo de cada quimioterapia, eu comecei a passar mal. Fui ao COL, fiz exame de sangue e voltei pra casa. Quando estávamos no meio do caminho ligaram pro Laerte: ‘Laerte, traz a Raquel de volta porque a imunidade dela está baixa’. A madrinha do Léo, que sempre trabalhou em hospitais disse: ‘eu não fiquei com medo de você morrer de câncer. Fiquei com medo quando a sua imunidade baixou’. Nesse dia, eu achei que ‘a viola ia pro saco’. Eu fiquei uma semana internada porque a minha imunidade foi a 100. Eu fiquei isolada. E foi muito estranho porque, a quimioterapia tinha feito todo o efeito no organismo – quando baixou a imunidade.
Eu falo que cada banho que a gente toma, quando está doente, é como se a doença fosse embora pelo ralo do banheiro. Eu tenho isso comigo e eu acredito nisso. Eu estava muito mal com febre, mal estar e tudo o mais. Quando eu voltei para o hospital (com a imunidade baixa) minha tia Jacira, estava lá. Chegou do sítio antes de mim no quarto. Me esperou com pijama, sabonete, com tudo, ficou comigo o tempo todo. Quando comecei a tomar banho, o meu cabelo começou a cair, no chuveiro. Aquele cabelinho curto. Eu falei: Tia, tá caindo. Ela falou: ‘ah! Vai passar”. Eu falei: Não vai passar, tia. Vai cair tudo. Eu tomei a quimioterapia vermelha e o médico me avisou que eu ia ficar careca. Mas isso nunca teve grilo pra mim. Eu fiquei internada, me recuperei da primeira quimioterapia e disse pro Laerte, vamos daqui (do hospital) para uma cabeleireira porque eu preciso tirar esse cabelo.
Eu cortava cabelo com a Solange e ela não quiz me atender por causa de uma gripe – depois ela me contou que não teve coragem. Fui na Nanci raspar a cabeça. A Nanci: “ah! Vamos cortar com a máquina três’. Ela passava a máquina três no meu cabelo e eu dizia: Nanci, qual parte você está entendendo que está caindo? Não vai ficar nada na minha cabeça, por favor, não adianta a máquina. Zera isso daí. Ela disse: ‘ah! Raquel! Não precisa! Vou passar a máquina um’. E passou a máquina zero. Eu fiquei nove meses careca. Perdi sobrancelhas, pelos, afetou até os meus dentes.
Quando entrei na quimioterapia começou a minha menopausa. Então, estou na menopausa desde os 33 anos – não era momento para a menopausa mas, acaba ficando.
Minha mãe vinha me visitar e me dizia aqui na varanda: ‘você não vai morrer disso! Porque você tem três filhos pra cuidar, viu! E eu não vou cuidar deles! Pode reagir! E pode se mexer pra vida!’. O Laerte sempre muito presente durante todo o processo de tratamento. As consequências vem agora, com a cintilografia óssea, deu alguma coisa no meu quadril e no meu joelho. Então, os risco de osteoporose, e osteopenia, são sequelas do câncer, porque eu não posso fazer reposição hormonal, o hormônio alimenta o câncer”.

Raquel Brunheroto Redondano, conta sobre a experiência

O corpo, a recuperação e o viver intensamente
“Eu não fiz reconstrução da mama (perdi um quarto), porque isso não é um problema pra mim. Eu não vou entrar num centro cirúrgico por conta de estética. Entrarei novamente se for preciso fazer uma cirurgia, não pela estética. Eu uso biquíni, frequento a piscina, praia. Eu tenho bojos para os meus sutiãs, feitos pela minha mãe. Não uso aquela prótese que é super pesada. Uma cunhada minha disse na época: ‘Raquel, eu tenho um cabeleireiro ótimo em Campinas que faz perucas maravilhosas’. Eu disse: pra quem? Eu não vou usar peruca. Não tenho problema de ficar careca – falando por mim. Eu acabei usando lenço e bandana pra sair na rua pra não impactar as pessoas e, não por conta do meu impacto. Eu abria o portão aqui em casa e atendia as pessoas, careca. Punha lenço só pra ir pra rua porque as pessoas olham (com julgamento) ‘ela está com câncer e vai morrer’. O Laerte até convidou a família toda a raspar a cabeça, eu não deixei”.

O sabor da vida
“Então, eu quero vida! Eu quero sair pra rua. Eu não quero perder a chance de escutar uma orquestra sinfônica, lá em Cordeirópolis, com a minha mãe. Se a minha tia me chamar: ‘Raquel, vamos comigo pra Holambra, hoje?’. Eu digo, vamos tia, pra Holambra. A Misé : ‘Vamos pra Barretos?’ Vamos pra Barretos. Então, eu tenho rodinhas nos pés.
Eu quebrei o braço num dia, em fevereiro e no outro dia eu me aposentei. Fiquei sabendo da minha aposentadoria no hospital. Foi demais.
A gente inventa muita moda. Eu e minha irmã vamos fazer aniversário é motivo para começarmos organizar a festa. Algumas pessoas aprendem com o câncer, eu aprendi e conheço quem não aprendeu. Eu acredito que o câncer foi muito bem vindo, porque eu consegui conviver com ele. Porque eu tinha as crianças, eu tinha o Laerte, meus pais; uma família que ficou do meu lado. Também tive a experiência da ausência de pessoas nesse período que não se aproximou, ao menos para dizer: ‘escuta! Você está morrendo? Você está melhor?’ Nunca vir fazer uma visita. Então, é a gente ficar doente pra saber com quem você pode contar. E com quem você não pode contar. Isso é fato! E a pessoa não precisa ter câncer. Pode passar qualquer outra situação na vida que você sabe com quem deve contar.
Eu quero vida! Aqui e agora!

5 comentários sobre ““Eu quero Vida! Aqui e agora!””

    1. Obrigada… Acho que falar a respeito pode ajudar as pessoas a perceber que um diagnóstico de câncer não é sinônimo de morte… Hoje em dia os tratamentos são muito eficazes…e fé e vontade de viver é ajudam muito…
      Beijos 🌷😘

  1. Parabéns Raquel, seu relato e lindo…. Hj estou passando pela mesma situação daqui 1 mês faço 33 anos. Foi muito bom mim ler tudo isso que chegou por meio de uma.amiga muito querida…. Tenho certeza que tbm vou superar tudo isso é que Deus esta no comando de tudo. Fica bem e que Deus abençoe vc e sua família.

    1. Olá Monique… Fico feliz de poder dividir um pouco minha experiência de vida… Sei bem o que está passando, mas tenho acompanhado algumas amigas na mesma situação e estão muito bem com o tratamento… Muitos avanços e estudos fazem com que os índices de cura sejam cada vez maiores… Com muita fé…e a certeza de Deus no controle fica bem mais fácil passar por isso… Se precisar de alguma coisa estou a disposição…
      Beijos 🌷😍😘

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