“Mulheres que plantam”

Desde 2005, trabalho com comunicação social. Desde então, convivo com a realidade das mulheres, na área rural, da agricultura familiar. Na medida do possível, tentei até aqui retratar a realidade de algumas mulheres, me aproximando através da culinária, de suas receitas, suas culturas e cuidados para com a família. Retratando a culinária, pude me impregnar do caráter, cuidado, escolhas, valores e acima de tudo ouvir sobre como essas mulheres veem e se relacionam com o que o mundo e a sociedade lhes propõe.
Fui percebendo, durante o convívio, que todas nós, mulheres, desejamos realizar projetos de vida. Mas, que a forma, o viés, o atalho ou mesmo os recortes que fazemos para suportar o dia a dia (que a rotina nos sobrecarrega) é meu quer retratar “Mulheres que plantam”. Trazendo pequenos recortes das histórias de mulheres que nesse espaço de comunicação ficarão registradas.

Quando perguntei para E. sobre a indicação uma ‘mulher que planta’ para que eu pudesse ir ao encontro e retratar um pouquinho sobre o seu dia a dia, a mesma me disse: A dona Didita! Então, eu insisto: mas ela planta? E. Responde: Sim! O meu filho sempre traz pra casa uns pés de alface lindos! Ele não sai de lá (da casa da Dona Didita). Nos finais de semana, eles (a família da Dona Didita) se reúnem, se juntam, e meu filho participa das atividades e reuniões em família. Eles (a família da Dona Didita ) criam animais também. A Dona Didita gosta de comprar mudas no Ceasa de São José dos Campos, ela diz que as de lá são as melhores, então, quando meu filho vai pra lá ele leva a lista de pedidos dela. Fui ao encontro de Dona Didita. Encontrei uma mulher nova, serena, com sabedoria.

Donizette Aparecida Milke dos Santos desde sempre viveu no sítio, depois de casada morou sete meses na cidade, voltou para o sítio e está até hoje, em Cosmópolis. Mesmo trabalhando para outras pessoas, permaneceu na roça (como ela diz), depois que o filho caçula (hoje com 19 anos) nasceu ela fica nas atividades da sua propriedade. Mãe de cinco filhos (4 homens e uma mulher), ela ordenha as vacas e produz o queijo. A mãe cuida dos porcos do filho e está contente por ter conseguido adquirir uma raça caipira mais rústica conhecida na região por “tatuzinho” por apresentar pelos e não crescer muito, tem as pernas mais curtas do que a raça de granja que é geneticamente alterada. Mas, ainda falta resgatar uma outra raça que ela conhece por “orelha de colher” com a orelha caída e sem pelos. A opção hoje em dia pela raça de granja (de porcos) é porque cresce mais rápido e fica muito maior. Ah! Ainda tem cavalo na propriedade, conheci um potro.

“Pra falar a verdade, eu não gosto de cidade, só gosto de sítio. Ir para a cidade só quando é preciso. Aí vou pra cidade e, tem que fazer tudo o que lá fui fazer bem rápido, pra voltar logo embora. Meus filhos falam pra mim: a mãe tem que sair mais. Vamos para o shopping com a gente. Meu menino foi na Holambra, na Exploflora. Eu gosto de ver as flores (da Holambra) mas tem muita gente, e dai eu não gosto, prefiro ir no dia que não tem muita gente. É muito lindo lá. Eu prefiro ir pra beirada de rios. Eu amo pescar”, ela me contou.

Na Horta, ela tem a parceria do neto, Leonardo, comercializa a produção através dos clientes que vem buscar até a propriedade e a irmã que leva para comercializar na feira livre, em Cosmópolis. Conta que no sábado do feriado de 7 de setembro, o rapaz (cliente) colheu e levou 200 pés de alface. Ela dá preferência para a produção de folhosas, tomates, cenouras, jiló, abóbora, temperos, quiabo, berinjela, e tem muito orgulho do início do seu bananal. Aduba a horta e o bananal com esterco curtido do curral. E, quando perguntei sobre o controle da tiririca ela respondeu: “Elas não me atingem. Eu vou arrancando (com as mãos). Não uso veneno”. Prefere molhar os canteiros com o regador. O espantalho ajuda espantar as pombinhas que vem comer as mudinhas novas dos canteiros.

Didita (como gosta de ser chamada) conduz as atividades da propriedade no dia a dia. Ela conta com a presença da nora e um casal de netos adolescentes e a filha Miriam. O marido e os três filhos que residem na propriedade trabalham em outros lugares. Ao contrário da vida urbana, a agricultura familiar tem uma rotina intensa, pesada, com a compensação de que para chegar até o trabalho não é necessário pegar transporte nem sofrer com o trânsito. O trabalho é quase sempre realizado ao ar livre, numa relação íntima com a natureza pois, tudo depende dela. Para o ser humano que tem a capacidade de cuidar de animais a relação com o tempo do outro conta muito, tanto para a alegria, como para a tristeza. Didita me levou para conhecer os animais da propriedade e quando me apresentou o Chiquinho – um porquinho filhote sozinho – me disse que quando a porca foi parir, deu à luz a Chiquinho e, começou passar mal. “Eu chamei meu filho pra trazer o veterinário (que sempre presta serviços pra nós) rapidamente. Quando voltei pra ver como a porca estava, ela já estava inteira rocha. Aí só ficou o Chiquinho”, explicou.

O que me leva a beber na fonte da agricultura familiar é que se trata de uma organização do Brasil Colônia mas, que se conservou até o século XXI, com todas as dificuldades reais. E conservou aquilo que a nossa cultura brasileira estima de coração, os valores. Eu pude sentir os valores que Didita transmite para os seus, nas atividades de trabalho do dia a dia e o respeito, com que os seus, tem para com ela. E mais, esses valores são reconhecidos pelos amigos. Lembrem-se de quando pedi referência a E. sobre a indicação de uma mulher que planta. E. me indicou uma mulher que planta valores, ela se chama Didita.


Os alimentos produzidos por Didita – “Mulheres que plantam” – inspirou a pro-
dução do prato da salada de berinjela grelhada com tomates e queijo fresco

Berinjela Didita

Ingredientes:
Fatias de queijo fresco,
01 berinjela limpa e seca,
Tomates cereja,
Orégano e manjericão frescos,
01 tomate italiano desidratado no forno,
Flor da capuchinha,
Azeite.

Modo de fazer:
Corte as berinjelas em rodelas de 3 cm cada. Leve-as para uma frigideira antiaderente e grelhe até mudar de cor, retire-as da frigideira com uma espátula e reserve numa peneira ou escorredor para esfriarem.
Para desidratar o tomate italiano use 01 colher (de café) de sal misturado com uma colher (sobremesa ) de açúcar e passe essa mistura no tomate aberto no sentido do comprimento. Leve ao forno numa grelha encaixada numa forma. Quando ele soltar a casca estará pronto.
Monte a salada fresca de berinjela conforme demonstra a foto.

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