Depois da primavera: Maio de 68 – Maio de 18

Passados 50 anos do levante estudantil francês de maio de 1968, podemos começar a melhor compreender, os desdobramentos desse acontecimento maior do século 20. No Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, um colóquio de três dias foram dedicados a discutir as consequências culturais e políticas após 1968. Tratou-se menos de celebrar os eventos de maio, e mais, compreender as lutas que se desdobram a partir dali. Segue a apresentação de Margareth Rago, professora livre-docente do Departamento de História do IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) da Unicamp no Colóquio temático ‘Feminismos’.

Margareth relembra, “eu tinha 19 anos em 1968 e estava no 2º ano de História na USP. Vocês podem imaginar como falar disso é falar da minha história? Eu queria contar uma coisa que me aconteceu em 1969. Naquele ano eu perdi a minha carteira de identidade (significativamente). E, há dois meses atrás, depois de receber o convite para participar nesse Seminário, alguém me achou no Facebook e falou assim (postou a carteira de identidade e perguntou): “Essa é você?” (eu respondi) “essa sou eu! Eu perdi (o documento) há exatos 49 anos! Como você achou?” A pessoa respondeu: ‘Sabe que é! Meu avô morreu e, nós fomos mexer na caixa na qual ele guardava muitas coisas’. Aquele senhor, achou (a minha identidade ) numa das ruas do Paraíso (bairro) e, guardou por todos esses anos e, a neta podia ter jogado fora (a minha identidade) mas, resolveu me localizar no Facebook. Você acredita?! Eu fui buscar, e estou com a minha carteira (de identidade). E aí, sou chamada para falar sobre 1968!?”, revela Margareth.

A professora continua, “maio de 1968 tem vários sentidos mas, quero enfatizar o maio libertário, as mudanças culturais, os costumes, os modos de vida, as lutas anti-autoritárias dos jovens de esquerda, do movimento estudantil, expressão dos movimentos culturais dos anos 60. Eu quero destacar a busca de outros modos de existência, que se colocaram para mim, dos hippies, dos Panteras Negras, estudantes das universidades, dos operários em busca da auto gestão, das mulheres e dos homossexuais em busca da autonomia. Maio de 68 abre espaço para vários tipos de lutas específicas e transversais para as mulheres e os feminismos. 1975, é considerado o Ano Internacional da Mulher mas, é importante notar que 68 traz vários temas e discussões como a crítica à moral sexual, a caretice dos padrões vitorianos da feminilidade da família, da heterossexualidade normativa, do engessamento das relações amorosas, afetivas e sexuais e, a busca da liberdade individual e novos discursos públicos e políticos. Eu também me dou conta de que como aquele momento a gente vivia os descompassos mas, nós não tínhamos um vocabulário, não existia uma linguagem feminista. Hoje, nós falamos: Nossa! Como nós éramos feministas! Mas a gente não tinha uma linguagem — falando de Brasil e da minha experiência. Nem a clareza da herança anarquista. Mas estava posta a questão da liberdade libertária individual. A autogestão do trabalho e da própria vida”, destaca.

Recordando, Margareth menciona que o romance do psiquiatra anarquista Roberto Freire, ‘Cleo e Daniel’, publicado em 1965, só chegou até ela em 1970, junto com Wilhelm Reich em 1969. “Assim nós fomos tomando contato com os acontecimentos fora do Brasil. Nós ainda não tínhamos reencontrado o nosso passado. Não existia a história dos grupos que lutavam pela transformação social, política e culturalismo; trabalhadores, negros, indígenas; nem de dimensões naturais da vida, consideradas eternas, sem história do próprio sujeito. Na minha época (curso de História na USP), imagine falar em história das emoções? Não existia. História era história dos governantes (através de) muitos professores de direita, era história factual, pra nossa grande sorte tinha (como professor) Fernando Novaes, Carlos Guilherme, chegando da França e também a professora Maria de Lourdes Gianotti. Mas eram de direita e muito positivismo pois, o marxismo ainda não tinha sido difundido e, estava ainda confinado em pequenos grupos – na década de 1970 que caiu na boca do povo”.

Enfatiza ela, “hoje, nós sabemos que a filosofia da diferença, que então se constituía, questionava a filosofia do sujeito que de Platão a Marx. Marcava o pensamento ocidental. Mas levou tempo para entender o que estava ocorrendo, mesmo que tivéssemos muita lucidez na ação. Eu acho que não havia uma elaboração conceitual, teórica, que foi sendo construída nas décadas seguintes. Acho que é assim que eu explico a vinda de Michel Foucault ao Brasil, cinco vezes. A primeira visita, ao Brasil, foi em 1965 mas, passou meio despercebido. Em 1973, 1974, 1975, 1976. Quando ele veio 1975, foi chamado para fazer um pronunciamento na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – FAU, durante a Assembleia dos Estudantes e, dois dias depois morreu Vladimir Herzog (assassinado pelas lesões e maus-tratos sofridos durante o interrogatório em dependência do II Exército – SP (DOI-Codi). Foucault foi a missa e participou. Várias pessoas conhecidas estavam (presentes). Convidaram Foucault para falar no Centro Acadêmico, ele falou. Sabe quando é que eu fiquei sabendo disso? Trinta anos depois! Quando eu fui fazer uma pesquisa para um espanhol que queria saber da história do Brasil e aí eu descobri”, ela rememorou.


Outra linguagem
“Ingenuamente, acreditávamos na liberação sexual como forma de emancipação. Eu me formei em 1970 e vim pra Unicamp fazer pós-graduação dez anos depois. Nesse entremeio fui no psiquiatra antes e, fui fazer filosofia na USP e lá em 1979 (meu último ano), encontro o meu colega de graduação da história, o Edgar de Decca que diz: Marga! O que você está fazendo aqui? Vem pra Unicamp! Eu disse: é isso aí! Vamos lá! E vim pra Unicamp. Quando cheguei tinha sido montado um arquivo anarquista. Aí, eu fui estudar o anarquismo e comecei a ler a imprensa anarquista, a obra “Terra Livre” de 1913, “Greve Operária” e do lado (estava a obra) “O prazer sexual das mulheres”. Eu fiquei chocada, porque eu descobri, que o amor livre, que eu achava que era da minha geração, o ano de lançamento do livro é de 1860, ou seja, há um século e meio os anarquistas defendiam o amor livre. E foi outra indignação”, observou.

“O movimento contracultura dos anos 60, foi fundamental com sua crítica ao autoritarismo, as hierarquias, a forma da sexualidade, sendo entendida como um dispositivo que enquadra as práticas sexuais que Michel Foucault formularia anos depois. O lançamento dos livros “Vigiar e Punir”, “História da Sexualidade” são concomitantes à sua presença no Brasil. Então, é toda uma década de 60 conturbada, e isso não está acontecendo só no Brasil, (também) na França, no México, em Praga”, acentuou.

“No Brasil, tem a luta contra a ditadura, ampliado por uma crítica dos costumes com o psiquiatra Roberto Freire, o teatro de José Celso Martinez Corrêa, a Tropicália, um movimento musical que potencializa essas rebeldias, há também uma grande crítica à esquerda porque nesse momento a esquerda está sendo presa mas, também o seu discurso está sendo considerado ultrapassado. Há todo um debate na Universidade. Eu vivi muito isso. Determinados colegas que eram do partido PC do B, POC, Partidão, alguns colegas acreditaram e entraram e havia um debate muito forte em relação a esses discursos que vão sendo considerados cada vez mais ultrapassados.Então, eu vejo que há uma mudança muito grande de paradigmas, um modo de pensar. E, completando aquela ideia de que Foucault veio muitas vezes ao Brasil, entendo a vinda dele como uma busca de outra linguagem pois, é um momento que a velha esquerda estava sendo presa. Na universidade estava chegando uma população que era (uma) outra fauna, (pessoas) completamente diferente. Foi assim: um grupo foi preso, foi embora e sumiu. O outro grupo chegou mas, era o Zelão – um negro com cabelo afro. Até 1970 os negros não usavam afro. Mal se falavam em fumo – antigamente eu conhecia a palavra maconha, e de repente era fumo e a esquerda antiga não fumava (não puxava fumo) porque tinha a ideia do novo homem (higiênico e trabalhador). Então, foi 180° de mudança e eu estava no meio disso também”, disse.

“Além de uma ditadura muito violenta e uma modernização acelerada no país, começaram surgir os shopping center. As pessoas mudaram a cor da roupa. Na minha opinião, São Paulo sempre quiz ser duas coisas: uma, o Rio de Janeiro. Outra: Nova Iorque. Nessa época, São Paulo queria ser o Rio de Janeiro, quando todos começaram fazer cooper e as mulheres entrando em massa no mercado de trabalho, indo para as universidades. Ao mesmo tempo, grande parte da classe média apoiava o regime. Até então, nenhum casal se separava e ninguém falava em morrer. O casamento monogâmico indissolúvel encerrou em 1970, aí chegaram os livros sobre o amor, a relação, o casamento, o divórcio. Na universidade a gente lia as revistinhas americanas que chegavam falando do orgasmo, do clitóris e de Wilhelm Reich (médico, psicanalista). As comemorações de 50 anos de 1968 são fundamentais, porque oferece um espaço político de discussão sobre o tema que é uma situação com ameaça de perda de conquistas, de décadas de luta, como os direitos das mulheres”, asseverou a professora.

Em sua conclusão profa. Margareth direcionou, “acho que pensar esses 50 anos é uma mudança que vem desse processo todo e não vejo muito como dizer às meninas feministas de 15 anos que elas devem ser menos singular. Com o aumento da desigualdade, a ascensão dos direitos trabalhistas, a massa dos pobres e desempregados, um número de jovens estão suicidando-se por falta de perspectivas, de uma competição muito maior do que as gerações anteriores. Se a luta feminina é evidente em 1968, o movimento feminista propriamente dito emerge na década seguinte na França, Estados Unidos e aqui no Brasil. Na década de 70 amplia-se esse movimento e o mundo se feminiza, transforma-se cultural e socialmente com imensa crítica feminista da cultura patriarcal e racista”, assim encerrou Maragareth.

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